Coisas que me assustam sobre escrever.
Me assusta pensar que eu posso ter perdido um amor pela escrita porque a minha vida é feita, descobri há pouco, de um mosaico de instabilidades e fugas de sentimentos e desejos que eram assustadores demais pra se viver, diante do cenário em que eu estava, com as possibilidades que eu tinha e as pessoas que estavam ao meu lado. Já faz muitos anos que não escrevo muito, tipo assim, muito mesmo, de pegar um caderno e colocar tudo ali, ou mesmo escrever num blog. Eu fiz esse blog porque queria muito fazer um cantinho pra mim. O cantinho até que ficou bem bonitinho, mas os textos... não é que eles não vêm, é que parece que não sei escrever quando não estou encurralada pelas próprias mentiras que inventei para tornar a sobrevivência um pouco mais suportável.
Então eu tenho medo de que, na verdade, eu nunca tenha sabido escrever. Eu tenho medo de que, a partir do momento em que a minha vida passou a buscar ter qualquer alinhamento entre o que estava dentro de mim e o que estava fora, a escrita tenha perdido a utilidade pra mim. Eu não sou mais tão mística, não sou mais tão dramática, não sei nem se sou mais tão profunda, dentro das minhas próprias palavras, porque toda essa obra sobrenatural auto-referencial que eu tanto tentava tatear foi se dissolvendo na minha existência como ela é, de uma forma muito pragmática. E, desse pragmatismo, tenho muito medo. Sempre pareceu haver uma razão suprema para que eu precisasse das palavras e, agora que essa razão não existe, tenho medo de que nada mais exista. Eu tinha que provar que meus gostos eram bons porque, se não provasse, eu não poderia justificar tê-los, diante de uma religião em que tudo o que estava fora dela precisava de justificativa ou era pecado, perda de tempo, qualquer baboseira do tipo; e diante de laços que se sustentavam com base em um controle estrito onde tudo precisava de muita explicação. Não sei muito bem como é viver sem precisar explicar por que faço o que faço, isso me assusta. Não sei o que é viver sem buscar provar ou até mesmo acreditar que o que está em minhas mãos é superior ao que está nas mãos do rebanho, porque não estar no rebanho é o que vai me salvar, eliminar todos os riscos, desafiar o sistema, desafiar a vida, vencer.
Me engano um pouco pensando com ares de vida resolvida sobre essa questão. Tirando das palavras o seu gosto, tirando do meu coração o relacionamento precioso com elas, como se a vida estivesse mais fácil só porque já não sou mais um fantasma esperando uma outra vida para existir, caminhar, se expressar, etc. Como se eu não estivesse cheia de palavras para dar ao vento. Como se eu não tivesse esse direito. Como se eu tivesse essa obrigação, também. Porque não só meu sofrimento é digno de receber palavras, e não só de ficções de finais tristes e sem esperança eu vivo, e também não do desespero de estar procurando a saída do labirinto. Posso dizer, aliás, que ainda tenho dor o suficiente para fabricar muitas palavras, então não é isso que está faltando. Acho que a minha liberdade, as minhas pequenas conquistas, também merecem palavras. Mas, principalmente, a minha criatividade, por si só, também merece palavras. Eu não deveria deixar a escrita só porque não dependo mais dela pra existir, com meu nome, com meu pronome, com a minha história, com o que eu sinto. Mas tenho medo de não saber mais o que fazer ao ver as possibilidades crescendo tanto.
Talvez eu deva voltar a escrever.