Série: Eu sou mau caráter

Eu sou mau caráter II

8 de setembro de 2026

Parte II: para aqueles que me esconderam debaixo do tapete

Às vezes eu ainda me pergunto se estou fazendo a coisa certa, se estou sendo cruel demais, se estou sendo má, se estou sendo ingrata. Eu sou mau caráter. Se, por vocês terem dado os anos da sua vida, eu deveria aceitar as facadas, eu deveria aceitar os tiros, eu deveria aceitar as palavras que ferem. Eu deveria aceitar estar perto mesmo sabendo que existe aí um desejo de que eu me dê mal, me dê muito mal, que todas as pessoas que eu amo soltem minhas mãos, que todo o meu mundo se prove uma mentira macabra, para vocês se lambuzarem na ideia de que estão certos, de que era melhor eu ter morrido infeliz, morrido atravessada por essa dor no peito incessante, por essa paranoia, por esses portões fechados aqui dentro que cortavam de mim o acesso a qualquer desejo ou ambição reais, mas cumprindo os seus protocolos de uma vida que traria a vocês, e só a vocês, e só exclusivamente a vocês, a sensação de orgulho e de dever cumprido como seres humanos. Devo dizer, eu não mais me pergunto muito. Devo dizer, eu já me pergunto bem pouco. Eu ando mau caráter.

Eu ainda me pergunto, mesmo que seja bem pouco por estar me tornando mau caráter, se a minha felicidade deveria mesmo ser proibida já que os dá vergonha. Já que não era aquilo que vocês esperavam de mim. Já que não era aquilo que a ultrassom contou. Não era aquilo que tentaram colocar na certidão. E já que vocês se esforçaram tanto, mas tanto, para evitar que eu chegasse a esse caminho, já que corrigiram tanto, já que censuraram tanto, já que brigaram tanto, gritaram tanto, deram tanto tapa. Me pergunto se é falta de respeito desonrar toda essa jornada de trancafiamento da minha existência, na intenção de que eu descobrisse uma maneira de ser feliz sem mexer naquilo que vocês tiveram tanto trabalho para esconder. Me pergunto se não foi maldade da minha parte insistir nessa coisa de falar fino, depois de tantos gritos para aprender a falar como se deve. Se não foi maldade da minha parte retomar os trejeitos, a expressividade, mesmo depois dos tão esforçados e amorosos olhares de reprovação para que eu não fizesse aquilo nunca mais. E, com muito amor e carinho, toda a criação das rotas possíveis para se continuar com a minha vida sem perceber que essa coisa estava selada, sem olhar para baixo do tapete.

Era só seguir as rotas, era só continuar com o emprego certo, sendo do jeito certo com a esposa certa, fingindo o sexo certo, engolindo os sapos certos, escondendo os textos certos, as músicas certas. Não tinha como dar errado. Uma hora essa felicidade chegaria. Era só ter tido mais paciência. Eu me pergunto por que fui tão impaciente sendo que talvez todos os meus dilemas, toda a minha vontade de desaparecer para sempre, pudessem ter sido resolvidos de uma hora para a outra, seguindo o seu manual por só um pouquinho mais de tempo. Já tinha suportado por trinta anos, que custava suportar mais trinta? E nem obrigatoriamente seriam mais trinta, talvez só mais um! Eu deveria ter resolvido meus problemas interiores com um pouco mais de bicicleta, de musculação. Se os meus problemas surgissem dentro de mim e tentassem me devorar, e minhas inseguranças tentassem me devorar, e minha inadequação tentasse me devorar, e minha incoerência tentasse me devorar, e meus personagens tentassem me devorar, e a minha relação inexplicável com o salto alto de mais de dez centímetros tentasse me devorar, era só ter comprado uma bicicleta e pedalado sem rumo por duas horas. Eu acho que pedalar uma bicicleta por duas horas sem rumo é a única coisa que pode resolver meus problemas aqui dentro. No fundo, o salto quinze só está me iludindo por dois anos seguidos e sonhar com eles por trinta não significou nada se não falta de pedalar uma bicicleta. Falta de ter treinado mais futsal. Falta de ter andado mais com um bando de macho que eu não suporto cheirando mal, falando por horas sobre fazer força e sobre a vizinha gostosa de um jeito que eu espero que daqui a alguns anos seja crime. Tinha tantas formas! Mas eu escolhi revirar o tapete. Imperdoável. Depois de tanto esforço. Depois de ter dado todas essas possibilidades e mais algumas, porque o que não faltaram foram possibilidades de ser feliz sem eu mesma. Imperdoável. Eu sou muito, mas muito mau caráter.

Essa felicidade é muito proibida, é muito imerecida, é muito cruel. Ela será arrancada de mim. Pelo mundo, por vocês, por alguém. Por mim mesma? Não sei, acho que não, mas haverá alguém. Haverá um vilão, que vocês não assumem mas na verdade tratam como salvador, que acabará comigo. Porque eu não mereço. Não depois de tudo o que fizeram por mim. Vocês não vêem a hora de alguém me ferir tanto, mas tanto, que eu vá recorrer a vocês ou morrer. Vocês duvidam também que eu vá preferir morrer, vocês têm a certeza de que eu vou preferir me rastejar. Eu não teria tanta. Eu tenho muita vontade de viver porque existo, não sei se a minha carcaça sem a minha existência teria esse mesmo valor. Talvez, de tão mau caráter, eu fosse preferir morrer a voltar para o seu ninho de amor, carinho e ternura, onde eu teria que voltar a ter o nome que vocês me deram, as roupas que vocês me deram, a personalidade que vocês me deram, a voz que vocês me deram, mas estaria tudo bem, porque haveria ali um computador, onde eu poderia jogar videogame em todas as minhas horas livres e ninguém nunca mais precisaria me ver. Dentro de uma tela de computador eu poderia viver a loucura que quisesse, o importante era não fugir dessa tela. Eu me pergunto onde estou com a cabeça para recusar esse mundo perfeito. Muita falta de caráter, eu acho.

Eu sobrevivi, não foi? Depois que disseram para eu falar grosso, eu falei grosso. Falei? Não sei. Não tenho certeza. Não sei se todo mundo disse para mim que minha voz era grossa, mas eu tenho certeza que fiz muito esforço e que muita gente não percebeu que eu fazia esforço. Eu fiz cara de má. Será que ainda tenho meu primeiro RG, careca, olho meio fechado, ombros tortos, sorriso meio rocha trincada? Aquele RG foi um orgulho, a polícia até achava que eu estava voltando da cadeia na abordagem quando via. Eu estava indo tão bem, eu tinha montado tantos refúgios para não olhar para baixo do tapete, maldita hora em que fui olhar. Maldita hora em que botei aquela porra daquele salto da minha esposa e senti que minha vida fez sentido. E o pior é que eu ainda precisei de uma cerveja para isso acontecer, para ver o quão mau caráter eu era, porque eu nunca deveria ter colocado um gole d'álcool na minha boca. Talvez o erro tenha sido esse, talvez o erro tenha sido beber a minha primeira cerveja aos 27 anos, na minha lua de mel, porque a minha esposa queria beber cerveja e eu achei que não era minha função proibir então acabei bebendo um gole e nem gostando. Foi o álcool que me colocou nessa situação. Mais provas da minha desobediência inconsequente, mais provas do meu caráter duvidoso ou, pior que duvidoso, alegadamente péssimo. Porra! Que pessoa burra! Essas pessoas jovens não pensam, puta que pariu!

E daí se eu tentei tirar minha vida aos dezoito e dezenove anos? Eu sobrevivi, não foi? Eu estou aqui, não estou? Então que porra é essa de querer mexer debaixo do tapete? E daí se, sem a minha sensibilidade, sem a minha "moleza", eu preferi não interagir mais com as pessoas, me fechando completamente no meu mundo digital e, nesse mundo digital, tivesse usado nomes femininos? Tentado "enganar" as pessoas a me tratarem com a delicadeza que eu desejava? Eu venci isso, não foi? Por trinta anos, não foi? Que custava continuar vencendo? E daí que eu nunca tivesse me sentido uma pessoa bonita na minha vida, que odiasse me olhar no espelho, que tivesse vontade de chorar? Quem disse que o ser humano precisa se olhar no espelho para viver? Sabia que antigamente as pessoas nem tinham espelho? Elas morriam sem nem saber como era o rosto delas? Era só eu ter feito isso, porra! O que mais existe é atalho para sobreviver com as questões que eu tenho! Eu escolhi a pior opção! A pior opção! E daí, me diz, e daí, me diz se é importante mesmo essa merda, de gostar de uma menina e se sentir um lixo só por gostar, sem nem olhar na cara dela, sem nem imaginar nada com ela, só porque eu não entendi e nem vou entender absolutamente nada do que gosto de fazer, entender nada do que desejo? Me diz, caralho, se isso é importante! Porque eu não acho que seja! Eu sabia muito bem que era só ter tomado um viagra e deixado essa porcaria aí que tenho entre as pernas duro o dia todo, e partido para cima dela, sem perguntar muito bem o que ela acha, já que se já não importa o que eu acho imagine então o que ELA acha, e feito o serviço, e depois rolado para o outro lado da cama e pensado "missão cumprida". Era SÓ fazer isso, o caminho tava dado, eu não consegui seguir uma coisa básica! A menina ia ter até engravidado assim, puta merda! Eu já estaria com um filho! Minha vida seria perfeita! O que foi que eu fui fazer?! A troco de quê?! E daí, me diz, me explica qual a importância, de eu me sentir feliz com o corpo que tenho? Eu só nasci com esse corpo! Não preciso ser feliz, porra! Quem precisa de felicidade, me diz?! Quem precisa?! O que eu tinha na cabeça para achar que a vida precisa de felicidade?! Se eu precisasse tanto de felicidade eu já teria morrido! Mas nem deu certo tirar minha vida!

Eu entrei numa igreja, com tantas, mas tantas possibilidades, de ter deixado essa merda dessa sensibilidade, essa merda desse salto, essa merda dessa voz fina, debaixo do tapete. Mas tantas! Era a especialidade desse lugar! Eu poderia ter vencido, era só ter tido mais força de vontade! Dois anos sem Lisbeth! Por que não quatro?! Por que continuar fazendo essas músicas que me obrigavam a pensar sobre mim mesma e as minhas dores?! Por que continuar escrevendo sobre o que estava dentro de mim?! Não poderia ter trocado tudo isso por devocionais e mais devocionais? Devocional da manhã, devocional do segundo gole de café, devocional do almoço, devocional do café da tarde, devocional da cagada remunerada, devocional do trânsito, devocional da academia, devocional antes do Sonic, devocional depois do Sonic? Se eu tivesse escrito mais sobre a Bíblia e menos sobre mim, talvez não estaria nessa situação terrível, mas o meu caráter é péssimo, eu sou muito, mas muito, mau caráter. Eu não pensei em ninguém, só em mim mesma. Aí fiz essa enorme cagada. Pensando só em mim mesma. Uma enorme irresponsabilidade. Com tantas opções! Quer mais opções?! Eu te falo mais opções! Eu poderia ter entrado na cura gay quando me sugeriram, mesmo que não soubesse muito bem por que me recomendaram a cura gay! Eu poderia ter abandonado o meu trabalho e me tornado missionária, aí viveria dentro da igreja o tempo todo e seria cercada, bombardeada, explodida de curas gays, curas gays em todo canto, palavra da cura gay, água ungida que cura gay, óleo ungido de cura gay, oração antes do vôo para cura gay, pregar para outros países a cura gay, comer o McDonald's da cura gay, tomar café na Starbucks da cura gay. E quando esse meu probleminha aí que vocês fizeram de tudo para colocar debaixo do tapete, mas eu insisti, surgisse, eu estaria cercada de pessoas que chutariam essa pessoa de volta para baixo do tapete com todas as forças, machucariam, humilhariam, cuspiriam, até que eu entendesse, e eu deveria ter entendido mil vezes, um milhão de vezes, um trilhão de vezes, que isso aí não precisa sair do tapete, que se eu aguentasse o suficiente eu poderia morrer e aí essa pessoa morreria debaixo do tapete comigo, ninguém nunca saberia, ninguém imaginaria que havia algo debaixo do seu tapete, talvez nem eu precisasse saber que havia algo debaixo daquele tapete. Porque vocês se esforçaram muito! Eu repito porque não é possível que eu não entenda o tamanho da minha ingratidão ao tirar do tapete algo que vocês deram o sangue para colocar! Fizeram de tudo! E o pior é que nem podem falar que me odeiam porque vocês, ao contrário de mim, um lixo humano, escória, derrota, vergonha, sabem seguir protocolos e dizer que me amam mesmo depois de tudo isso! Eu posso dizer que não os amo, mas vocês nunca dirão o mesmo, mesmo que se recusem a aprender, ou mesmo a dizer, o meu nome. E nem nunca tenham me visto nas suas vidas e peçam muito encarecidamente para que eu não os mostre como sou.

Eu me pergunto por que esse mau caratismo todo de achar que eu estou sofrendo, quando os outros é que estão sofrendo de verdade. Eu não passo de uma pessoa inconsequente vivendo aventuras, me divertindo, cuspindo em todos os pratos em que comi, estufando o peito e encarando o mundo, entrando em casas aleatoriamente e quebrando vasos e quadros. Apesar de ter passado vinte e cinco anos da minha vida sentindo dores insuportáveis no peito, vivendo de ideação suicida em ideação suicida, de despersonalização em despersonalização, vivendo a sensação constante de que apenas estava seguindo a esteira do mundo sem nenhum desejo próprio e aguardando a minha morte. Eu deveria entender que sofrer, sofrer mesmo, quem está sofrendo são os outros. Se eu choro de vez em quando, é pelo meu próprio egoísmo de não entender que esse sofrimento das outras pessoas que não estão na minha pele, que não estão com medo do preconceito, medo do abandono, medo da morte, medo da violência, medo da desumanização, dentre outros medos que já não são mais medos abstratos e sim memórias vivas do que já sofri nessa caminhada, mas sim medo da vergonha de uma pessoa não ter sido exatamente do jeito que ela foi planejada, que é um medo muito, mas muito mais assustador, do que o meu, é que é sofrimento de verdade. Queria ser menos egoísta para entender isso, mas não consigo porque meu caráter, vocês já sabem, é muito duvidoso. Que falta de noção e de respeito querer aceitação e acolhimento, como uma pessoa que saiu debaixo de um tapete, das pessoas que me colocaram para baixo do tapete. "O que eu estava esperando?! Que seria recebida de braços abertos?", me permitam dizer que eu tive caráter o suficiente para não esperar isso, mas também me permitam dizer que eu não tive caráter o suficiente para não desejar isso, mas eu prometo que vou melhorar, eu prometo que não vou esperar mais nada, eu prometo desistir de tudo e nunca mais encher o saco de ninguém. Eu prometo ir para bem longe e nunca mais submeter ninguém à vergonha de ter que olhar na minha cara, mesmo que eu ainda faça o esforço, que já não tenho mais caráter para sustentar, de não apresentar a minha cara.

Eu estou muito cansada. Exausta. No fundo, estou mais deprimida do que gostaria de admitir. Adotar essa missão de limpar a minha barra sobre a minha existência foi a segunda coisa mais ingrata que já fiz na minha vida, a primeira sendo obviamente não ser quem eu sou, não ter suspeitado do tapete, ter acreditado que tantos surtos poderiam ser calados. Mas essa foi a segunda. Eu fiz o meu melhor e não ganhei nada. Eu insisto em me despersonalizar, porque para quem já fez isso por trinta anos, parecia não custar fazer por alguns minutos. Mas custa. Custa muito. Custa mais do que nunca. Dói mais do que nunca. Ser eu mesma me tornou mais forte, mas mais fragilizável, mais consciente da minha dor. Eu já ando muito mais tempo com um sangramento mas consigo vê-lo, senti-lo, chorá-lo, e pensar que não preciso caminhar tanto sangrando. E eu acho que ando sangrando muito. Por isso me desculpem muito pela minha maldade, crueldade, egoísmo, ingratidão, mas eu já não me importo mais. Eu sou mau caráter.

Você leu um capítulo da série Eu sou mau caráter

escrito por nubobot42 narrado por hannah