Série: Eu sou mau caráter

Eu sou mau caráter I

4 de setembro de 2026

Parte I: antes da história, um recado

Eu escolhi esse nome para começar a me desdobrar porque me lembro de vocês, que me sempre tentaram me destruir, dizendo isso sobre mim para a pessoa que eu amo. Eu sou mais do que mau caráter, eu sou um monstro. Quero me apropriar dessa violência com a qual me marcaram no corpo. Se eu fosse me apresentar, eu diria "olá, prazer, eu sou mau caráter", porque é esse o lugar em que ocupo, não é? O lugar do mau caráter, do imoral. Pobres criaturas, muito mortais, muito fracas.

Meu corpo é invencível.
Meu corpo é ferido.
Meu corpo é violado.
Meu corpo é carne.
Meu corpo é prova de crimes que cometeram contra mim.
Meu corpo é enorme.
Meu corpo nunca foi pequeno.
Nunca foi pequeno.
Nunca foi pequeno.
Sempre foi enorme.

Quando se é grande demais, é mais fácil ter a impressão de que as outras pessoas são muito pequenas do que perceber que você é grande. Então seria um insulto chamá-los de formigas? Desculpem, eu não achei que seria, é só como eu enxergo.

Quando se é grande demais, é muito fácil que as pessoas olhem para você e decidam tacar pedras. É muito fácil para elas porque elas são pequenas, minúsculas, você nem vai saber quem tacou.
De pedra em pedra, a dor vai tomando forma crônica. Pequenos incômodos que vão se somando e se tornando constantes. Ruídos. Irritações. E eu estou muito, mas muito irritada.

Vocês me trancaram num porão por medo. Sempre medo.
Eu sempre fui diferente. Eu sempre fui muito grande. Mas, principalmente, eu sempre fui diferente.
Medo.
Vocês morrem de medo.
Vocês tremem de medo.
Do que represento.
Do que sou capaz.
Do que posso viver e vocês não.
Vocês nunca.

E eu vivi trancada. Amarrada. Todos os dias, alguém tacava uma pedra. Todos os dias, um incômodo. Todos os dias, uma pequena ferida se abria cada vez mais. Essa ferida se abriu muito. Essa ferida se tornou enorme. Enorme, como eu sou. Vocês tinham medo. Vocês se espantavam. Vocês não conseguiam entender. Tão grande, tão diferente. Tão maior. Tão maior. Vocês abriram feridas tão grandes, com pedrinhas tão pequenas, que se sentiram no direito de entrarem nas minhas feridas, construírem casa nas minhas feridas, morarem nas minhas feridas, viverem nas minhas feridas. Vocês se acostumaram com a ideia de que eu nunca faria um movimento, porque amarrada, porque presa, porque não havia espaço para me mexer naquele porão pequeno, tão pequeno que vocês conseguiam enxergar o teto, conseguiam enxergar as paredes. Um lugar do meu tamanho é tão grande para vocês que vocês achariam que não é um lugar, é o próprio mundo, não tem teto, é o céu. Mas o teto está apenas a alguns metros da minha cabeça, vocês são quem não conseguem ver. Essa é a diferença do meu tamanho para o tamanho de vocês. Sempre foi.

Eu nasci com medo. Eu nasci censurada. Nasci ouvindo que era perigoso demais me deixar solta por aí. Que eu me perderia de tudo e de todos. Que eu atropelaria o mundo. Que mundo? Que eu atropelaria o mundo. Que mundo? Que eu atropelaria o mundo. Ah! O mundo. Ah é, o mundo. Quem teve medo de me amarrar preferiu me entregar à casa de vocês, famosa por amarrar seres, dos pequenos aos grandes. Deu trabalho me amarrar, não foi? Não que eu tenha feito muita resistência, só era... grande, né? Porque eu lembro das amarras. Eu lembro que deu trabalho. Eu lembro de vocês colocando uma corda e percebendo que ela se desfiava toda, mesmo que eu nem fizesse movimento algum. Eu lembro de alguns de vocês tacando as pedras e me ferindo, por ódio ao meu tamanho e à minha diferença, e lembro de outros de vocês fazendo rituais de redenção aos que me tacaram pedras, porque não valia a pena defender alguém tão difícil de amarrar. Nunca valeu a pena me defender, não é? Nunca valeu a pena. Eu cresci sabendo que não vale a pena me defender.

Eu lembro de cada corda que desfiou.
E lembro de cada corda que ficou.
Eu sou mau caráter.
Eu sou imoral.
Estragada.
Podre.
Sou.

Eu não lembro de todas as lágrimas que derramei por estar ferida demais e não poder fazer nada para me defender, porque existiam aquelas amarras, aquelas amarras boas, aquelas amarras aparentemente difíceis de desfazer, que me impediam de me levantar. Esse teto minúsculo, esse cômodo onde eu precisava distribuir minha gordura corporal de maneiras pouco uniformes para caber. Meu nariz para fora da janela, desesperado, tentando respirar. E pessoas tacando pedras nas minhas cavidades nasais. Queriam que eu morresse? De certo, queriam.

Eu sangrava muito. Mesmo que de pouquinho. Todo dia sangrava.
E eu não podia me defender.
Eu acho que cansei muito. Eu acho que só queria que acabasse. Estar com vocês é viver com a constante sensação de querer que tudo acabe.
Ficar num cômodo fechado, obscuro, onde eu mal cabia, onde as pessoas apareciam para me machucar, para atar novos nós nas minhas cordas, para amarrar alguma coisa que estava parecendo solta demais.

Eu sou mau caráter.
Eu me lembro da vez em que disseram que eu era mau caráter e instável porque minhas ideias mudavam demais. Porque, em um dia, eu estava pensando de um jeito, e em outro dia eu estava pensando de outro completamente diferente. É difícil ser grande. É difícil ver pessoas pequenas. Quando as pessoas são tão pequenas que o meu corpo inteiro não cabe no raio de visão delas, elas só conseguem enxergar uma parte, sempre uma parte, uma pequena parte. Daí andam alguns quilômetros e passam a enxergar outra parte, apenas outra parte, uma outra pequena parte. Não entendem. Será que essas pessoas entendem algo do meu corpo? Será que essas pessoas já conseguiram ver meu corpo inteiro? Porque eu acho que cabe um exército de pessoas desse tamanho no cômodo onde me colocaram mas eu, eu mesma, nem coube inteira.

O maior medo de vocês era que eu me livrasse das amarras e quebrasse toda essa casa, não era? Desde sempre, esse foi o medo. Coitados! Por que eu não entendi? Por que não dei uma colher de chá? Se bem que eu já disse várias vezes que não tinha interesse nenhum em fazer nada. Eu já pedi para ir embora. Para tirarem minhas amarras e me deixarem ir embora. Eu já implorei.
Nada.
Nada.
Nada.
Vocês não conseguem confiar na palavra nem de vocês mesmos, quanto mais na de uma pessoa do meu tamanho. Uma pessoa imprevisível. Uma pessoa com um corpo desconhecido, movimentos desconhecidos, e com a capacidade de destruir tudo. Quando se é do meu tamanho, as pessoas imaginam que vou fazer de tudo só porque, se eu quiser, eu faço. Ninguém confia muito no que eu quero.

É tão engraçado olhar para todas essas marcas que eu tenho no meu corpo! Lembrar de todas essas pessoas que se sentiram no direito de viver dentro das minhas feridas, alojar-se dentro das minhas feridas. Perceber que o que essas pessoas tinham era medo. Eu sou mau caráter. Eu acho que morro de vontade de explorar esse medo de vocês, como forma de agradecimento por todas essas partes minhas que sangraram, que sangram, e que talvez nunca parem de sangrar. Eu acho que preciso falar que sangrou. Porque, para mim, a parte mais importante é que vocês me feriram e me fizeram sangrar. Mais do que as amarras. Às vezes eu me pergunto se, caso houvessem apenas as amarras, eu não estaria até hoje amarrada com vocês, nesse inferno que vocês chamam de paraíso. Porque as amarras, quando você se acostuma a não se mover mais, se tornam uma estética, até chique se você pintá-las de cores quaisquer. Mas... me ferir? De sangrar? Precisava mesmo? Se bem que acho que é da natureza de vocês ferir pessoas, tacar pedras nas pessoas, matá-las de tanto jogar pedra. Eu acho que deve ser instinto de vocês, não entendo muito bem como funciona o cérebro de pessoas do seu tamanho.

Me ferir? De sangrar? Precisava mesmo?
Precisava mesmo?
Eu queria perguntar mais uma vez: me ferir? De sangrar? Precisava mesmo?

Agora que estou aqui fora, me digam três motivos para não esmagar esse lugar onde vocês vivem para amarrar pessoas e tacarem pedras.
Um motivo eu já tenho e dou a vocês: seria justo eu esmagar pessoas que estão amarradas como eu, só porque quero esmagar vocês? De bandeja! Agora só faltam dois. Boa sorte!

Eu tenho um corpo todo marcado.
Eu tenho todas as lembranças das vezes em que não fui suficiente, mesmo que tenha sido até mais do que os suficientes.
Das vezes em que fui incompreendida ao pedir comida e vocês me perfuraram com uma lança.
Eu tenho provas dos crimes que vocês cometeram. No meu corpo. Eu tenho, sim.
Eu me esforcei muito para que vocês parassem de me ferir. Eu me esforcei muito para, ao invés de arrancar as amarras eu mesma, pedir a vocês que gentilmente arrancassem ao menos aquela que estava apertando tanto meu braço, mas tanto, que ele estava a ponto de necrosar. Eu poderia ter arrancado as amarras sozinha o tempo todo. Eu me acostumei, me doutrinei, a acreditar que só vocês deveriam.

Que enorme recompensa foi, quando uma amarra soltou sozinha sem eu fazer movimento, apenas porque ficou fraca demais e se soltou, ter sido chamada de mau caráter. Vocês se lembram de mim assim, não é? Como mau caráter. Então eu sou mau caráter. Porque todas as pessoas que mais me feriram, me agrediram, me maltrataram, me destruíram, estão dizendo. Que mais me marcaram. Que mais se sentiram no direito de me desprezar em público. Elas estão me chamando de mau caráter. Essas pessoas minúsculas, que se eu tropeçar eu mato, e já devo ter matado alguma sem querer. De mau caráter. Então eu sou mau caráter.

Como será que é melhor acabar com vocês?
De scarpin? Para dar aquela sensação de roleta russa: será que vou ser pego pela pata? Será que vou ser pego pelo salto fino? Será que vou sobreviver a esse passo porque fiquei entre o salto e a pata?
De anabela, para levar o máximo de pessoas possível de uma vez?
Ou eu não devo fazer nada disso, só ir embora para sempre e esquecer que esse lugar minúsculo, onde nem uma perninha minha sequer cabe mais? Como? Se vocês ainda ouvem o estrondo da minha passagem e se sentem na coragem de tacar uma pedra? Eu não deveria acabar com isso logo de uma vez?

Você tem certeza que quer tacar pedra numa pessoa mau caráter? Será que eu tenho medo de matar? Será que eu tenho medo de marcar quem me marcou? Será que eu vou achar injusto esmagar quem me perfurou com uma lança? Sendo mau caráter?

Mas e se eu for uma mulher tão grande, mas tão grande, que talvez eu nem consiga mais matar vocês? Talvez eu já esteja num tamanho em que vocês caberiam nas minhas veias, eu nunca consegui matar nenhuma bactéria e elas estão em todo lugar. Eu acho que as pedras que vocês ainda jogam quando me encontram não me machucam mais mas, quando eu sinto bater esse grãozinho minúsculo de sal no meu corpo, ele ainda entra em contato com alguma ferida que estava lá, e que cresceu em tamanho junto comigo. Aí eu fico irritada. É tudo o que vocês podem fazer por mim, me irritar. Quando lembro de vocês, me irrito. Quando eu lembro de vocês, dói, mas também me irrito. Só eu posso me imputar essa dor ao me lembrar de vocês. Vocês, vocês mesmos, já não podem fazer mais nada.

Enorme como sou, nunca esquecerei do porão. Nunca esquecerei do escuro. Nunca esquecerei dos anos amarrada. Meu corpo, como disse, carrega as feridas. Elas cresceram também. Cabem todas as formigas do passado dentro de uma só ferida minha. Eu poderia alimentar uma humanidade inteira desse tamanho só com o sangue do furo no meu peito. Eu percebi, também, que não existe cura para alguém do meu tamanho. Que a minha vida eu vou levar sangrando. Que eu precisava escolher muito bem as feridas que iria carregar, porque não haveria volta. E então, diante de toda essa situação complexa, eu não escolhi nenhuma das minhas feridas. Vocês escolheram todas. Eu sangro por culpa de vocês, eu não tive nem o direito de sangrar por culpa minha. Eu não tive o direito de criar as minhas próprias dores e não tive o direito de viver meus próprios erros, as dores que vocês causavam sempre vieram antes, os erros que vocês inventavam para eu sentir que estava errada e não ter tempo de pensar em arrancar alguma amarra sempre vieram antes. E vocês vão me dizer que não merecem a minha vingança?

O meu pecado foi não ser do tamanho que vocês queriam.
Não é um pecado que me incomoda.
O meu pecado foi não ser do jeito que vocês queriam.
Não é um pecado que me incomoda.
O meu pecado foi não ver o teto que vocês viam.
Não é um pecado que me incomoda.

Todos os amores que eu sangro são amores não realizados.
Todas as amizades que eu sangro, eu sangrei em nome de vocês.
Todas as brigas que eu sangro, eu briguei por vocês.
Todos os sonhos que eu sangro são sonhos que vocês proibiram.
E toda a afetividade que eu sangro.
E todas as lágrimas mal derramadas.
Quanto sangue eu derramei por vocês.
Quanto sangue eu deixei de derramar por mim.

É tão horrível perceber que tenho todos esses anos e nenhum erro meu para contar.
Vocês me arrancaram tudo e não estão satisfeitos.
Porque eu dei um jeito de conseguir me devolver a mim mesma.
Sozinha.
Longe de vocês.
Longe das suas insanidades.
Vocês não vão descansar enquanto não me arrancarem tudo de novo. Enquanto me verem solta por aí. Desfilando com meu corpo todo marcado por vocês, fazendo propaganda da sua violência. Eu já entendi que vão continuar tacando suas pedras, como se nada houvesse mudado entre nós.

Vocês são idiotas? Eu não estou mais presa no porão de vocês. Eu sou mau caráter.
Eu vou acabar com vocês. Vai sobrar só uma mancha de sangue no chão.
E, quando eu olhar para essa mancha, vou sorrir. Vou gargalhar. Porque, apesar desse tamanho todo, ainda sou humana. Vou gargalhar. É um pecado, não é?
Não é um pecado que me incomoda.

Você leu um capítulo da série Eu sou mau caráter

escrito por nubobot42 narrado por hannah