Série: Tóquio, Japão - Julho de 2025

30 de julho de 2025

3 de setembro de 2026

Encerramento: ônibus nunca mais e agradecimentos ao Japão

30 de julho de 2025. Literalmente o dia mais comprido das nossas vidas. Como você explica sair de um país uma da manhã e chegar em outro quatro da tarde, e isso durar 30 horas? É foda o tal do fuso horário. Não posso dizer que prestei a mesma atenção no planeta nessa volta, na ida eu estava mais empolgada. Eu estava exausta, no limite, muito cansada. Por enquanto os problemas não importavam tanto assim. Eu só queria saber da minha casa, da minha cama, de hibernar por uma era depois dessa viagem.

Chegamos em Dubai cerca de sete horas da manhã, mas é claro que isso não significa que o vôo durou seis horas. Ele durou ali suas doze, treze horas. Fizemos um moonwalk no planeta Terra, deu nisso. Chegar em Dubai me traz uma memória bem complexa de lidar: uma tia minha foi a primeira a vir comentar que escapamos de alguma catástrofe natural que aconteceu praticamente assim que saímos do Japão, veio comentar que eu era uma pessoa de sorte, o que para mim não era tão legal de se pensar porque me traz um sentimento de injustiça mas foda-se eu entendi a intenção. Pode ser que essa tenha sido a última vez que interagi com essa minha tia. Dezessete dias depois ela veio a falecer, repentinamente, mudando muita coisa nas nossas vidas. Essa minha tia morreu sabendo quem eu era, não entendendo muito bem, mas muito mais preocupada com os conflitos que ocorreriam entre eu e meus pais, eventualmente entre eu e o resto da família, do que em buscar explicações. Eu estava muito empolgada para contar todas as coisas que aconteceram no Japão para ela, porque ela era a pessoa mais interessada, ela era a pessoa que dizia que eu tinha que ir logo para a cidade do interior onde minha família fica, sentar e contar tudo. Ela se foi antes de eu poder contar como foi. E eu tenho certeza que poderia chamá-la num cantinho e contar como foi também a parte de ser bonita e ser elogiada pelas japonesas. Mas é, talvez nosso último diálogo tenha sido uma surpresa sobre como eu me safei de um tsunami no Japão por algumas horas.

Em Dubai, não precisamos sair do aeroporto. Eu sinceramente estava com zero disposição, um cansaço enorme. Só procuramos por ali qualquer coisa para comer, achamos... e eu nem lembro o que era, se foi um sanduíche, um lanche, sei lá, era gostoso também mas minha memória está bem péssima para esses dias. Logo fomos até o lugar onde pegaríamos o avião. Pegamos o avião. Agora era chegar em Guarulhos. Mais quinze horas de vôo ou talvez mais, só isso.

Chegar no Brasil tem uma dor e uma delícia: a delícia é voltar a falar português e consumir 90% a menos de neurônios na comunicação. Eu acho que começar a falar em inglês com as pessoas ao sair do país é bem difícil no primeiro momento, até você lembrar que sabe falar inglês fluente. Depois que lembra fica mais fácil, bem mais fácil. Mas cansa. Não é porque fica automático que esse automático queima o mesmo tanto de neurônios que o automático da língua materna. Cansa mais. Tem hora que não rola. Tem hora que você sabe o que quer falar, mas a outra pessoa não sabe te entender. Tem hora que você não sabe o que quer falar. Então chegar em Guarulhos e ver as pessoas todas falando português é um alívio enorme, eu estava morrendo de saudade da minha língua, era inevitável. Também cheguei com a impressão de que o Brasil na verdade não perde em nada para o Japão, o Brasil também é lindo, eu gosto muito de morar no Brasil. A dor, no caso, é que, assim que dei o primeiro passo para fora do avião, já entrei automaticamente em Modo Segurança Pública Brasil e meus olhos voltaram a procurar por todo canto por pessoas suspeitas, para ver se alguém estava de olho na minha mochila, carteira, depois a mala quando pegamos. Meu cérebro ligar esse modo de volta me fez praticamente acreditar que o Brasil é um estresse pós-traumático em forma de país, é muito esquisito pensar em sair na rua e não ter medo de nada, apesar de que estar em Guarulhos causava um dano cerebral a mais porque sou uma pessoa muito medrosa com São Paulo, em Londrina eu sou menos desconfiada.

E o pior é que nós tínhamos horário para chegar na Barra Funda. Porque, lembrem bem, eu tive a brilhante ideia de não comprar um vôo de Londrina para Tóquio, porque queria economizar. Pensei: "de ônibus daqui para São Paulo ida e volta é baratinho". Na ida isso só foi uma ideia ruim porque compramos a passagem mais baratinha e o ônibus quebrou em Osasco, para quem não lembra da história. Na volta nós estávamos com quatro malas, duas grandes e duas pequenas. Nós estávamos mortas. A cada cinco minutos eu me amaldiçoava por ter tomado uma decisão tão horrível e espero nunca mais repeti-la. Nós tivemos um trabalho hercúleo pra conseguir enfiar essas quatro malas no ônibus de Guarulhos que nos levaria do Terminal 1 à estação de metrô. Nós perdemos um trem para a Barra Funda e eu fiquei com medo de chegar atrasada demais, um cagaço enorme. Nós pegamos o próximo trem e ficamos lá, em alerta vermelho, segurando quatro malas e pensando que se alguém quisesse nos roubar, já era. Eu fiquei em alerta vermelho nesse caso, porque minha esposa não resistiu e dormiu no trem, apoiada em uma das malas enquanto a outra ficava meio solta, mas não tinha como ir longe porque ela cairia em mim. E quando chegamos na Barra Funda ainda tivemos que levar essas quatro malas para o terminal rodoviário.

Não me lembro se foi nessa viagem que rolou um caos na passagem de ônibus, em que eles cancelaram a minha linha do nada, mas eu dei sorte de chegar cedo na estação e poder trocar. Muita sorte. Talvez tenha sido nessa viagem, talvez tenha sido na viagem de dezembro desse mesmo ano, mas... há chances reais de que foi nessa. Na Barra Funda encontramos meu amigo para quem compramos o Donkey Kong Bananza, e eu confesso que pela primeira vez me senti constrangida de ver um amigo enquanto performando um homem, já que a minha ideia de me mostrar feminina para o mundo ficou muito consolidada depois de Tóquio. Nós comemos no Bob's, o que para mim é a maior roleta russa de comida que existe, já que ultimamente não anda tão ruim, mas eu já comi o pior hambúrguer da minha vida no Bob's da Barra Funda. Contamos algumas coisas da viagem, contamos algumas coisas dos meus pais. Ele nos ajudou a chegar na plataforma onde o ônibus chegaria e, por fim, nos despedimos. Embarcamos. Rumo a Londrina. Num ônibus decente, ao menos nisso eu pensei dessa vez, mas... num ônibus. Que ideia idiota. Ainda hoje eu não acredito que nós chegamos fudidas após uma viagem para o outro lado do planeta por quatorze dias e tivemos que pegar um trem de Guarulhos até a Barra Funda, e depois um ônibus de oito horas de São Paulo a Londrina. Não dá pra acreditar que eu tive essa coragem. Eu não quero nunca mais ter coragem para esse tipo de besteira.

Dito isso, essas oito horas de São Paulo a Londrina passaram voando. Nós descemos na nossa rodoviária-mamãe, ninguém nos esperando porque nem avisamos que horas chegaríamos, camelamos mais um pouquinho com as quatro malas, pedimos o nosso Uber para casa. Chegamos em casa. Andamos da portaria até o nosso apartamento, o que é mais ou menos mais uma quadra de caminhada, com essas benditas malas nas mãos. Chegamos no nosso apartamento. Era inacreditável. O nosso sofá, a nossa cama. Deitar e dormir na nossa cama. Eu não dormi muito certo nos dias subsequentes por conta do fuso horário mas, sinceramente, eu nem sei há quanto tempo eu já não dormia direito. A minha esposa teve que retomar a rotina já no mesmo dia, ou no dia seguinte, algo assim, enquanto eu ainda tinha mais uma semana de férias. Não me lembro se já nessa semana eu fui na casa dos meus pais sozinha e tive a pior conversa da minha vida, conversa essa que levou minha esposa a me proibir de ir sozinha nos meus pais novamente, mas não quero lembrar se foi essa a semana. Deve ter sido. Foi antes daquela minha tia morrer, então deve ter sido. Não preciso falar disso.

Eu não conseguia sentir falta do Japão quando deitei na minha cama, não tinha como. A minha cama é muito boa. Estar na minha casa, sem ninguém por perto, sem nenhuma boca abrindo e fazendo qualquer tipo de som, é muito bom. Fazer um dos meus gachas vagabundos que eu não conseguia fazer no Japão, porque não tinha notebook. Eu sinceramente não lembro o que fiz de bom naquele dia, talvez eu não tenha feito nada. Não importa. O gosto de estar de volta no Brasil, na minha cidade, na minha casa era muito bom, mas o tempo tratou de me criar saudades eternas de Tóquio, mas Tóquio também me deu forças para ser mais livre aqui no Brasil. Eu falei um pouco disso dois dias atrás, mas eu passei a exercitar meu coração a suportar o peso emocional de incluir a minha existência nas pequenas coisas cotidianas, nunca mais buscar uma encomenda com roupa masculina, incluir roupas femininas no meio do look que eu usava quando ainda me disfarçava de homem, um passo de cada vez até que chegamos a nunca mais sair disfarçada novamente, exceto quando nas nossas famílias. Eu passei um mês ouvindo todas as discografias da ASOBIEXPO: bala, Toua, Natsuko Kondo, algumas outras lá da abertura que nem decorei o nome, SWEET STEADY, CANDY TUNE, FRUITS ZIPPER, ATARASHII GAKKO! e, claro, reouvir a discografia da Kyary Pamyu Pamyu, mas além disso reouvi alguns álbuns do Pizzicato Five, tentei reouvir alguns do ORIGINAL LOVE mas aí senti que a saudade já estava corroendo meu ano então deixei quieto e voltei a ouvir músicas de todas as nacionalidades. É impossível não sentir saudade dos jingles da linha Yamanote então às vezes eu abro o YouTube, procuro o melhor jingle e ouço. Eu gosto dos sons do Japão, eu sinto falta. Sinto falta até as ambulâncias e alarmes que tocavam de manhã.

O Japão ampliou também meus horizontes e minhas ambições. Embora eu tenha ficado um pouco revoltada com a vez em que fui até a penúltima fase da convocação para o Banco Central, tendo sido barrada apenas na prova de títulos, tudo o que eu fiz foi me revoltar e nem ligar mais para novos concursos. Eu cheguei no Brasil sedenta para voltar ao Japão, mas toda endividada, ainda lidando com meu vício em comprar sapatos, e decidi que voltaria a fazer concursos, estudando de verdade, até passar em algum que me pagasse mais de R$ 20 mil por mês, que me pagasse um valor com o qual eu pudesse viajar ao Japão todo ano se quisesse. Todas as minhas ambições cresceram, das boas às duvidosas. Eu passei a achar que é uma meta aceitável ganhar o suficiente para comprar um sapato de dez mil reais sem sentir culpa, eu busquei novos apartamentos para comprar e só desisti porque percebi que não ficaria mais em Londrina por muito tempo, o mundo financeiro se expandiu um pouco demais na minha cabeça. Meus colegas de trabalho, que ganham mais do que alguém que acabou de começar no Banco Central, fazem todo ano uma viagem para o exterior, com família e tudo. É muito triste que eu, trabalhando no mesmo lugar que eles, não possa fazer o mesmo e não tenha perspectiva de fazê-lo tão cedo.

Além disso, parece que conseguimos estabelecer uma conexão da família nipo-brasileira que está aqui com a que está lá que não se dissipou mais. Que pena que eu não posso participar disso, né? Que pena.

Às vezes eu ainda estudo quais são as chances de eu me mudar para o Japão e dar certo. Do que sei, isso não poderia acontecer porque eu precisaria ir para trabalhar em algum lugar lá, e eu iria apenas para receber dinheiro brasileiro e consumir na economia japonesa. Eu vejo muita gente comentando que o Japão encanta muito as pessoas. Eu posso dizer com tranquilidade que fui uma dessas pessoas encantadas. Não posso dizer que foi do mesmo jeito do que os outros, mas duvido que existam pessoas com experiências iguais. Se você quer ir ao Japão pegue as minhas dicas ao longo dessa série, todos os erros que cometi para não cometer igual (e foram muitos), prepare-se porque é um lugar incrível. Se você é como eu que tem muita dívida cultural com o país, eu recomendo que não se importe tanto assim com pontos turísticos aleatórios, escolha alguns, mas também vá a lugares que façam seu coração mais feliz pelo simples fato de referenciarem algo que cresceu contigo. Vá num Pokémon Center, vá numa exposição de Gundam, vá em Akihabara, ache um show de algo underground que você gosta e vá já que é meio difícil conseguir um ingresso para um show grande sendo turista, pesquise sobre grupos de J-pop amadores e acerte um dia no Sunshine City. Seja feliz, seja nerd, só não trate as pessoas de maneira estranha como um weeb. Era um plano de expansão cultural, não é? Você pode criticar planos assim mas, se deu certo contigo, deu certo contigo. Não tem o que fazer.

Por fim, eu só posso agradecer ao Japão. Por todos esses dias incríveis que mudaram minha vida para sempre, ou talvez não seja bem isso, talvez eu prefira dizer que explicaram melhor a minha vida, traduziram melhor a minha vida, deram mais coerência à minha vida. Por todos esses lugares maravilhosos. Por toda essa maneira muito diferente de viver o mundo. Por esses sorrisos, por essa prestatividade, mesmo que eu saiba que no fundo os trabalhadores sofrem demais por ela. Por toda a comida deliciosa. Pelas noites bêbada de saquê. Pelos timbres. Pelo costume de enfiar tecladinho em tudo. Pela privada com jatinho no cu, da qual também sinto falta todos os dias. Pela ASOBIEXPO, que de vez em quando ainda me faz passar mal pensando que vi a Kyary Pamyu Pamyu ao vivo. E, em outras notícias, pela SEGA, pela série Sonic the Hedgehog, que foi de uma vez só a origem do meu gosto por videogame, por desenho, por programação e por música. Pela Capcom, pela série Mega Man, que me definiu em tantas coisas que nem sei por onde começar. Pelo Mana-sama, que me fez pela primeira vez me fascinar com crossdressing ao invés de ter nojo. Pelo ALI PROJECT, que me ensinou a viver minha transgeneridade pela primeira vez, me dando recursos para me entender como livre para ser quantas pessoas eu quiser, e que me consolou quando eu já não tinha mais vontade nenhuma de viver mesmo do seu jeitinho sombrio, obscuro. Pelo Yasutaka Nakata que produziu as meninas que eu mais desejei ser na vida e, é claro, principalmente até, por essas meninas (Kyary Pamyu Pamyu, Toshiko Koshijima, Aa-chan, Nocchi, Kashiyuka, Ichikawa Nagisa, Kate Sakai). Pela Tomoko Sasaki que produziu tanto a trilha sonora de um dos jogos mais importantes da minha infância, o Ristar, quanto pela banda Serani Poji que foi a base epistemológica da minha personagem Yasu, que cai na graça de todos por aparentar ser uma grande filósofa, quando ela não passa da minha reação crescente e transbordante à música 15秒. Pelo Janne Da Arc que me fez acreditar que metal progressivo era palhaçada. Pelo Yellow Magic Orchestra que me fez acreditar que qualquer música é palhaçada. Pelos mangás de yuri que li na adolescência sem ninguém imaginar que eu lia esse tipo de coisa, e que fizeram mais pela minha sexualidade do que qualquer pornografia ocidental (ou não). Pelo Crush 40 que foi a desculpa perfeita que encontrei para começar a ouvir rock num lar evangélico onde isso era proibido. Eu sei que já falei de Mega Man, mas muito, muito obrigada Japão pelo anime de Rockman.EXE e pela série Mega Man Battle Network, porque além de importantes até para a escolha da minha primeira profissão, foram os meus maiores abrigos emocionais da infância e da pré-adolescência. Aliás, pelo anime de Rockman.EXE, que me fez, aos oito anos de idade, aprender a usar P2P, mas principalmente aprender inglês sozinha de maneira auto-didata porque só haviam legendas em inglês e eu queria muito saber o que as personagens estavam falando. Pelo Pokémon, tanto pelo anime que foi o primeiro anime que eu gostei de assistir, o primeiro filme de anime que meus pais me levaram para assistir no cinema, quanto pelo jogo que me levou a passar por conselho de classe na sétima série porque eu amava demais jogar online e não fazia mais nada da vida, mas que também me tornou excelente em cálculo e eu o carreguei até na faculdade de engenharia. Pelo Mobile Suit Gundam, que é super recente, mas me ensinou que a única parte boa de uma guerra é quando soldados de nações opostas se beijam na boca. Pelo Katamari Damacy, que foi uma série da qual joguei apenas um jogo, mas mudou tanto a minha vida com a trilha sonora que eu já nem lembro mais como era meu gosto musical antes dele. Pela Akino Arai, que foi a decolagem epistemológica da Yasu. Pela série Monogatari, que... eu nem sei explicar o que essa série fez e faz comigo, vou ficar em dívida com essa explicação, mas em especial pela Tsubasa Hanekawa. Pelo Pizzicato Five, pelo amor de Deus, pelo Pizzicato Five. Pelo Tsubasa Reservoir Chronicles, mangá do qual já não me lembro de mais nada, mas lembro perfeitamente do meu coração se partindo e despedaçando em cada capítulo e isso me dando forças para viver uma existência onde eu podia me fragilizar, me emocionar, me quebrar, chorar, e me sentir humana por isso, não um monstro irrecuperável. Pelo Naruto, não porque eu gosto de lutinha (não que eu não goste), mas porque me fez chorar muito também, ao menos agora quando já mais velha e capaz de chorar por shounen. Pela Miho Moribayashi, porque me ensinou que voz é um instrumento, não uma habilidade, mas também porque finalmente me fez entender o que sinto no meu aniversário. Pelo Neon Genesis Evangelion, que ainda não tive coragem de reassistir, mas foi talvez minha única companhia em 2013, quando minhas ideações suicidas se converteram numa forte e ardilosa depressão. Pelo Dragon Quest que me ensinou que o padre até pode te ressuscitar mas só se você deixar dinheiro com ele. Por muitas coisas das quais devo estar me esquecendo. E, também, não poderia deixar de mencionar, muito obrigada Japão pelos imigrantes que chegaram até o Brasil (perdão pela maneira como o Brasil os tratou, mas sou descendente de negros escravizados, também não estamos na melhor), imigrantes que tiveram filhos, netos, bisnetos, e a uma dessas bisnetas de imigrantes entreguei meu coração. Muito obrigada, Japão.

Como pode você, do outro lado do mundo, não se desligar da minha vida em nenhum momento? É por isso que essa viagem a Tóquio não foi a viagem a Tóquio, foi apenas a primeira. Ainda temos muito a conversar. Eu tenho roupas muito melhores agora. Eu tenho muito mais segurança agora. Tenho um tênis rosa bem bonito para usar quando cansar do salto, não é mais um trapo preto velho que desqualifica meu look. Espero voltar com um salário acima de vinte mil e gastar muito em comida. Não vou me sentir constrangida de experimentar nenhuma roupa, ouviu Ginza? Ouviu Harajuku? E talvez eu chore de novo em Shibuya, mas não se preocupe, eu já encarei os meus pais e os meus sogros, eu já encarei o Brasil, já não há nada que eu fiz aí que eu não tenha feito aqui, e até me acostumado a fazer aqui, já está tudo bem. Mas é o costume, sabe? Eu choro fácil. Você não pode me oferecer uma vista maravilhosa de uma silhueta de artista cantando na Tower Records, aquele cruzamento todo iluminado de Udagawacho, e achar que não vai escorrer uma lágrima sequer. Pode ser que eu ouça Udagawa Friday para não me emocionar tanto assim, só me divertir, mas se for Sweet Thursday de novo não tem chance, né? Enfim. Muito obrigada, Japão. Até a próxima.

Você leu um capítulo da série Tóquio, Japão - Julho de 2025

escrito por nubobot42 narrado por yasu