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ASOBIEXPO 2025
20 de julho de 2025. O tão-aguardado dia, que ainda não tinha muita coisa para dar certo. O primeiro dia em que acordei um pouco mais cedo e nos arrumamos mais cedo, para sair antes das onze da manhã. O evento começava duas horas da tarde, então uma hora da tarde tínhamos que estar lá... Mas é claro que com o meu senso de pontualidade nós não conseguimos fazer isso.
No desespero, saímos após comer comidas rápidas de Seven-Eleven e já meio perto do meio-dia. O look do dia foi meio Kyary Pamyu Pamyu mesmo, mas não muito porque eu ainda não tinha roupas a altura: um conjuntinho jeans claro, a minha lace rosa e, principalmente, a minha plataforma Fisherman rosa comprada na AliExpress. Graças aos impostos de importação e ICMS eu paguei mais de mil reais nessa sandália de plataforma e tenho um certo arrependimento, dessa vez por falta de conhecimento: é uma sandália relativamente simples, eu poderia ter pedido para alguém fazer pra mim e sairia talvez até melhor. A parte de cima dela é realmente muito bonita, de uma cor rosa choque intensa, meio plastificada, eu adoro, mas a parte da plataforma é um rosa bem mortinho, dá a impressão de que foi pintado sobre um papelão. Mas num geral ela é bem legal, continua sendo a estrela desse dia, é só que haviam maneiras mais baratas e talvez até com mais qualidade de consegui-la.
É claro que eu já saí morrendo de medo de não fazer nada certo. Eu peguei o endereço bonitinho, pesquisei no mapa como fazer pra chegar, re-pesquisei, decorei nomes, decorei tudo, até coisa que não precisava. Precisávamos ir num lugar chamado Makuhari Messe, na cidade de Chiba. Para isso, precisávamos pegar a linha Yamanote em Otsuka até a estação de Tóquio, e aí dar um jeito de pegar uma linha chamada Keiyo, descendo numa estação chamada Kaihimmakuhari. Não tinha erro. Apesar disso, sou uma pessoa capaz de acreditar em possibilidades de erros que não existem, e eu também estava preocupada com ter saído muito atrasada.
Fizemos esse trajeto.
Descer as ruas para Otsuka, como sempre. Pegar a linha Yamanote, como sempre. Descer na estação de Tóquio pela primeira vez. Descobrir o que é uma estação de metrô realmente grande: a estação de Tóquio é uma das estações da cidade com Shinkansen, de cabeça lembro só de Ueno e Shinagawa além dela. Ela parece se ligar a todos os lugares do mundo porque tem incontáveis andares, incontáveis restaurantes, uma Uniqlo lá dentro e sei lá mais o que. Levamos muito tempo para encontrar essa linha Keiyo, que parecia ficar no subterrâneo do subterrâneo do subterrâneo. Um movimento dos infernos, parecendo muito a estação da Luz. E o meu coração balançando pensando nas pequenas chances que tínhamos daquilo tudo dar certo, mesmo que não fosse da forma mais perfeita, mesmo que tivéssemos que ficar muito longe, não sei, eu só não conseguia pensar que iria dar certo. Talvez eu já estivesse com a cabeça preparada pra chorar, pra implorar pra alguém, falar que vim do outro lado do mundo pra isso, eu estava com a cabeça muito pronta para o desafio já que eu não estava pronta para a possibilidade de simplesmente dar certo. E aí o horário continuava pesando pra mim. Por que não saímos do hotel nove da manhã? Por que demos conta de sair apenas quase meio-dia?
E então chegamos na linha Keiyo. Ela não parecia uma linha que nos levaria até o lugar. Como eu disse, era muito subterrânea, a gente parecia estar enterrada, eu tinha a impressão de que a parede iria estourar e tudo ficaria inundado, eu tinha mil e uma impressões. Então pegamos aquele trem, no desespero, porque aquela linha não era como a Yamanote que tinha um metrô saindo a cada cinco minutos, perder aquele trem significaria esperar talvez trinta minutos. Eu tinha visto isso também, que a linha Keiyo não era tão frequente quanto a Yamanote, e eu nem consigo lembrar como cheguei nessa informação porque não é o tipo de informação a qual eu veria ou prestaria atenção. Eu fui muito bem munida de todas as informações que consegui encontrar. E entramos no metrô.
Um tempão naquele subterrâneo que parecia não estar indo de lugar algum a lugar algum, muita parede, às vezes entrávamos no túnel do túnel e não era possível enxergar nem mesmo a linha no sentido contrário. Péssimo lugar para quem é claustrofóbico.
Quando saímos daquele aperto subterrâneo, porém, fui agraciada tanto com a certeza de que estávamos indo para a direção correta, quanto por uma das melhores vistas que já vi na minha vida: a linha Keiyo sentido Chiba passa muitas vezes por cima do mar, afinal, a própria Tóquio possui uma baía, o aeroporto de Haneda está localizado de frente pro mar. Do que me lembro, o início do trajeto era mais uma aparência urbana com o mar, uma infinidade de pontes, cidade passando por cima do mar, de um lado para o outro. Lindíssimo.
Logo o vagão deu uma esvaziada porque aquela linha passava pela "Disneylândia do Japão", o que aparentemente era o principal interesse de quem pegou o metrô. Sinceramente, eu não vejo graça nem na Disney dos Estados Unidos, imagina ir para o Japão e ir para a Disney de lá. Pra quem mora lá tudo bem mas quem pagou para ir ao outro lado do mundo, lugar com tanta coisa própria bonita, e decide ir na Disney, de todos os lugares, infelizmente será julgado. Felizmente meu julgamento não traz um realzinho sequer de prejuízo ao julgado então, se você fez isso, pode ficar bem.
Enfim, continuamos. Eu não percebi muito bem quando saímos da prefeitura de Tóquio e entramos na prefeitura de Chiba, se desde que saímos do túnel, se a Disney é de Tóquio ou de Chiba, mas acho que já estávamos com certeza em Chiba quando começamos a passar pelo complexo industrial. Muitas, muitas, inúmeras empresas, das clássicas com trabalhos mecânicos, pessoas trabalhando com empilhadeira, coisas assim. Muitos centros urbanos de Tóquio parecem conglomerados de escritórios em alguns momentos, foi até meio esquisito ver um lugar com aquelas empresas mais clássicas, do jeitinho que Ford gostava. Empresas nacionais, empresas internacionais. Aparentemente muito fácil conexão com o aeroporto de Haneda.
É uma coisa que acho bonita, sim. Eu trabalhei por muitos anos num parque industrial de Londrina. Num dos meus trabalhos eu atendia três setores diferentes e um deles era uma indústria de produção de componentes eletrônicos, era o trabalho que mais me fascinava, que eu mais queria ver de perto e que eu menos conseguia porque a minha alçada se resumia a digitalizar Kanban para os caras, raríssimas vezes tive a oportunidade de ir lá, sentar com alguém e perguntar o que eles estavam precisando, qual era o processo a ser automatizado, como funcionava, se eu podia ver por um dia, etc. É até engraçado que uma vida tão mecânica quanto a industrial pareça mais interessante que a vida administrativa. Mas é isso, eu gosto. E amei o complexo industrial de Chiba, ou talvez ainda Tóquio, apesar desse complexo industrial sem dúvidas não ser nada bonito em comparação àquela vista para a imensidão do mar que ficava ao fundo.
Não que fosse uma imensidão imensidão, é provável que lá pra frente ainda ficasse outro pedaço da ilha porque aquele lugar tinha formato circular, mas não dava para enxergar. Foda-se. Era lindo. Um mar brilhante, um sol bonito e escaldante de verão.
Por muito tempo foi isso e não tem como ficar escrevendo muita coisa diferente. Não perde a graça, eu não cansei de ver nem por um instante, mas foi mais de meia hora disso. Depois começamos a chegar mais perto da cidade. Chiba era a segunda cidade do Japão que estávamos visitando, nem mesmo estava nos planos, mas mesmo que estivesse ao lado de Tóquio já havia um clima muito diferente, muito mais interiorano. Eu não sei explicar porque Chiba não é uma cidade de praia, é uma cidade de baía, parece um meio-termo entre porto e praia, um climinha mais tranquilo, estabelecimentos mais coloridinhos clássicos ao invés das luzes super-coloridas de Tóquio, menores em tamanho exterior (e provavelmente muito maiores em tamanho interior mas não entrei em nenhum pra saber), com uma aparência mais aconchegante. Casas não me lembro de ter visto, mas os prédios eram menores.
Enfim, chegamos na tal Kaihimmakuhari. Lendo agora faz sentido, né? Makuhari, Makuhari Messe e tal, mas bem. O lugar parecia um centro de eventos gigantesco e aquela estação estava praticamente no meio, não fora. Muitas escadas descendo e subindo, muitos estabelecimentos, restaurantes, mas sem essa verticalidade toda tão comum de Tóquio, as coisas ficavam organizadas muito mais na horizontal e haviam sim vários andares mas nunca de maneira plenamente vertical, sempre você alcançava algum lugar por meio de escadas, por meio de passarelas, pontes, coisas do tipo. Não sei se consegui explicar muito bem. Era um lugar enorme.
A primeira ansiedade que sempre vem para pessoas como eu é se realmente acertamos o lugar ou não, se descemos na estação certa, se pesquisamos direito, e acho que isso pareceu um pouco resolvido quando logo na entrada tinha uma cantora com o chapéuzinho no chão esperando moedas mas principalmente querendo algum tipo de reconhecimento cantando J-pop. Não sou uma profunda conhecedora de J-pop e posso dizer que, passando esse tempo no Japão, só quem mora no Japão pode ser um profundo conhecedor do J-pop. Não é o Jpopsuki que vai resolver a sua vida. O nicho J-pop é um nicho extremamente localizado, mas vou deixar essa conversa para depois porque, afinal de contas, só falaremos de J-pop hoje. Tem muita oportunidade ainda. Ia dizer sobre não ser uma profunda conhecedora mas tive a impressão de que as músicas que a menina estava cantando eram autorais. Eu achei muito foda.
O tempo estava passando e eu não podia esperar um minuto sequer. Era 13h e o festival começava às 14h. Eu sabia que era um festival, mas nem entendia muito bem como seria, eu só sabia que em algum momento haveria Kyary Pamyu Pamyu, não conhecia mais nenhuma banda, não tinha nem me interessado de pegar os nomes. Estava bem foda-se. Aí tentei usar o mapa para entender exatamente onde era esse Makuhari Messe mas o espaço estava bem pouco movimentado, era grande demais, tinha mais gente comendo nos restaurantes do que andando. A gente foi se perdendo nesses labirintos de escadas e ruas e pontes mas seguindo essa direção do mapa onde poderia estar um centro específico para eventos.
Até que finalmente, FINALMENTE, encontramos muito movimento. Um lugar cheio de barraquinhas e filas para muita coisa, mas eu não conseguia encontrar nada sobre shows e nada ali parecia me interessar muito, além disso o inglês das pessoas já estava consideravelmente pior do que em Tóquio então eu não conseguia me comunicar muito bem. Um dos motivos pelos quais eu quero aprender japonês é andar em outras cidades fora de Tóquio, em Tóquio as pessoas parecem saber inglês ou ter uma intuição maior para o inglês que você está falando, em Chiba as pessoas têm uma boa vontade mas elas não parecem estar tão acostumadas com turistas então é um pouco difícil, eu adoro o esforço que eles fazem mas acho que retribuiria todo o carinho pelos japoneses que me receberam tão bem invertendo o ônus e fazendo eu esse esforço de falar a língua deles. Digo isso porque sei o que é estar num país onde tem gente que não se esforça porra nenhuma e te trata feito lixo, ainda mais se você não for branca (Itália). Mas tudo lá estava muito difícil e eu estava nervosa afinal, deixem-me lembrar vocês, eu ainda não sabia se daria certo, eu não fazia ideia do que iria acontecer.
Então outro finalmente, o mais importante dos finalmentes, aconteceu: eu entendi que estava no lugar errado e decidi voltar um pouquinho, através da junção de algumas respostas que obtive das pessoas ao perguntar sobre a ASOBIEXPO, e cheguei no lugar. Cheguei na parte dos ingressos. Eles estavam vendendo ingressos. Ah, meu deus do céu, eles estavam vendendo ingressos. Esse processo de venda de ingressos por si só foi uma bomba engraçadíssima de ansiedade: perguntei se precisava de telefone pra comprar ingresso ali, a moça disse que não, vencemos essa; a moça não conseguia entender nossos nomes porque não eram nomes japoneses, então eu passei a acreditar que não conseguiríamos comprar os ingressos porque não tínhamos nomes japoneses, mas ela escreveu lá uns nomes meio diferentes que pareciam ter a sonoridade dos nossos nomes e ficou tudo certo; por fim, só podíamos pagar no dinheiro, não dava no cartão, e aí eu quebrei e achei que não conseguiríamos de novo, mas pensei que aquele espaço era enorme e eu poderia ir até qualquer lugar para arrumar dinheiro, e de fato tinha um caixa eletrônico em outro prédio, então deixei a minha esposa ali e fui lá buscar, a moça me falou "hurry". Deu tudo certo. Conseguimos os ingressos.
Deu tudo certo.
Conseguimos os ingressos.
Inacreditável. Inacreditável. Inacreditável. Nós veríamos Kyary Pamyu Pamyu. Isso era inacreditável. Eu já estava passando mal de pensar que não esperava que isso fosse acontecer ali no Japão, mas estava para acontecer. Nós veríamos Kyary Pamyu Pamyu. Ah. Puta merda.
Bom... Hurry up, né? Pegamos nossos ingressos e já entramos naquele labirinto que culminaria no festival. Tínhamos que sair do lugar onde estávamos, dar a volta, descer uma escadaria e entrar no mesmo estabelecimento pela porta de baixo. Ali na escadaria já havia movimento, e dentro da porta havia um salão enorme, lotado de gente, com filas para todos os lados e eu sem saber qual era nossa fila. Bom, só saímos seguindo fluxos e perguntando, alguém nos parou para tirar uma foto com a Polaroid e nos dar de graça, e entramos no salão. Puta merda.
Estava lotado de gente no salão, mas estávamos apertadíssimas, morrendo de vontade de ir no banheiro. Eu tive muito medo de entrar no banheiro, como de praxe, mas minha esposa me ajudou, entramos juntas, deu tudo certo, acho que ninguém ficou me encarando. Como a fila era enorme acabamos perdendo uma parte do show que estava acontecendo ali. A essa altura eu já tinha lido o flyer da ASOBIEXPO e visto todas as pessoas e grupos que tocariam, eu de fato não conhecia nenhuma, e essas duas que estavam tocando eram tipo a abertura da abertura da abertura, o nome delas nem estava lá mencionado direito, mas eu me senti perdendo algo interessante porque o som estava muito legal. Triste. Depois eu fui atrás de todos aqueles artistas, tanto dos que consegui ouvir quanto dos que não consegui, elas eram: Natsuko Kondo, Kawanishi Natsuki, Satsuki Ririka e bala. Me surpreendi com algumas porque têm carreira há bastante tempo, uma delas é Youtuber e bala é um grupinho mega modernete que eu gostei muito mas tem poucas músicas.
Voltando do banheiro tentamos encontrar um lugar lá na frente pra sentar e até sentamos, mas aí o nosso senso de socialização estava denunciando algo estranho e nos causando algum desconforto por estarmos lá, eu decidi perguntar pra alguém ao meu lado e descobri que as cadeiras eram enumeradas, você não comprava apenas o direito ao acesso, você comprava o próprio assento específico. Muito bom. Claro que nosso lugar não foi lá na frente porque compramos na última hora, mas ainda não era um lugar ruim, só deu um pouco de trabalho para achar.
Eu não consigo me lembrar se comemos antes do primeiro show ou se teve um intervalinho ali pelas 16h, porque nós não tínhamos comido nada ainda e estávamos com fome, mas pra ser sincera eu nem lembro o que comemos. Aliás, eu até consigo puxar da memória algumas coisas, acredito que há mais chance de ter rolado um intervalinho, lembro de eu me sujando toda comendo alguma coisa gordurosa, lembro da minha esposa protagonizando alguma cena engraçada com comida também, comemos doce, bebemos água porque estávamos morrendo de sede naquele verão absurdo do Japão, e foi isso. Independente de ter sido antes dos shows ou no meio dos shows, isso aconteceu.
O primeiro show que assistimos, então, foi de uma cantora chamada Toua. Na verdade eu não sei muito bem como defini-la, me falta domínio tanto da cultura quanto do próprio japonês: quando pesquiso na namuwiki, não sei se é uma tradução automática ou feita por IA, ou se é de fato escrita por alguém, mas dizem que ela revelou ser uma "okama", mas li na Japan Gay Guide que é um termo desatualizado e ofensivo. Talvez ela seja simplesmente uma mulher trans. Teve uma época que eu tentei pesquisar melhor e não consegui chegar numa conclusão, até porque também não é uma artista mega-famosa com carreira internacional e muitas informações, eu sigo ela no Instagram e acaba que é difícil pegar definições quando a artista se comunica numa língua que você não entende. Mas enfim, é isso, a primeira artista da ASOBIEXPO não era cisgênero e isso foi muito foda. Ela é muito foda. A Toua é uma Youtuber e Tiktoker que começou fazendo vídeos de maquiagens e ficou bem popular, lançou algumas músicas pela ASOBISYSTEM mas não sei se deu continuidade na carreira musical porque o Jpopsuki dela está a ver navios. De qualquer forma, como disse, eu acompanho o trabalho dela pelo Instagram e ela segue sendo uma pessoa ativa no mundo da moda, ela divulga maquiagens, roupas, além de ser modelo, e ela entrega mesmo. Recomendo.
No show ela tinha repertório, um estilo bem atual meio hip-hop meio trap com a sua voz bem suave, cantava e se movimentava com muita personalidade e até um certo poder, mas ressaltava bem mais essa característica da suavidade mesmo. Eu gostei das músicas. No momento eu estava achando tudo bem normal, mas olhando em retrospectiva, pensando nos shows que vieram depois, a fanbase dela era um pouco mais sóbria, um pouco mais jovens alternativos, as pessoas num geral cantavam junto com ela mas não era característica da plateia fazer coisas de otaku, não era o perfil nem dela e nem dos fãs.
Eu devo dizer que não lembro exatamente qual foi a ordem de shows. Acredito que a ordem foi dos shows mais fracos de fanbase até os mais fortes, embora eu não possa dizer que a fanbase da Toua seja fraca. Os últimos quatro eu lembro na ordem, mas os primeiros... Eu só lembro mesmo da Toua ter sido a primeira porque foi bem marcante iniciar daquela forma, mas não lembro tudo.
Talvez o segundo grupo tenha sido as PiKi. E sim, eu fiquei completamente apaixonada pelo som delas, por um motivo muito óbvio que foi difícil de me escapar: o produtor delas é o Yasutaka Nakata, o mesmo da Kyary, de CAPSULE e de Perfume, o som era muito característico, é impossível não saber que é dele quando você gosta. As PiKi são um grupo de duas cantoras mega kawaii, como depois fui descobrir que é a estética de quase todo mundo do evento, mas que abusam demais das cores claras, do próprio branco mesmo e dão um ar meio angelical. Apesar de serem bem kawaii, as músicas não são fofinhas tipo um arco-íris sendo vomitado na sua cara, é sempre em cima dessa estética de um fofo meio místico, uma coisa meio pessoa intocável, inalcançável, não sei explicar mais do que isso. Mas é muito bom. Pra quem conhece música japonesa, é uma estética um pouquinho tipo uma pitadinha assim de Yuki Kajiura, mas com esse kawaii da ASOBISYSTEM e o eletronicismo do Nakata. Um baita show. Uma fanbase alucinada, apaixonada por elas. É engraçado porque nesse show eu tenho a impressão de que elas tocaram muitas músicas, mas se elas tinham três músicas lançadas até então foi muito, talvez as outras tenham sido covers. Eu sei que gostei muito desse.
O próximo show, ou talvez esse show tenha vindo antes das PiKi, mas acredito cada vez mais que PiKi veio primeiro, foi CUTIE STREET. Eu devo dizer que não tenho grandes lembranças sobre as músicas delas. O maior choque foi, pela primeira vez, ver um legítimo grupo da cultura J-pop mais weeaboo que existe na minha frente. Isso por si só já foi incrível. Quando elas foram anunciadas, a plateia mudou. Quando elas entraram no palco, a plateia era completamente outra. Foi um fenômeno muito, mas muito fascinante de se ver. Lembram quando falei de ter experimentado o DVD Fan Service da banda Perfume no Sunshine City em Ikebukuro? Tá que foi a sensação ali, mas aqui eu finalmente estava vendo isso com tanta efetividade. Aqui sim era um bando de maluco gritando, balançando aqueles bastões coloridos, fazendo movimentos, por causa de umas menininhas no palco. Mas o principal, o mais importante de tudo, aquilo que explodiu a minha cabeça e me fez fechar o entendimento completo de como funciona um show de J-pop, foi quando eu percebi que eles sabiam o nome de todas as meninas do grupo (o CUTIE STREET deve ter oito), e que uma coisa que acontecia nos shows mais antigos de Perfume não era algo específico, era algo que fazia parte da própria cultura do J-pop: você precisa saber o nome de todas as meninas do grupo porque, quando uma delas canta sozinha no palco, você precisa ficar torcendo por ela, gritando o nome dela de maneira ritmada, como se a torcida fizesse parte da música. É muito importante saber disso porque as músicas de J-pop mais tradicionais são todas compostas e produzidas com isso em mente, no refrão todo mundo vai cantar e aí talvez você possa cantar junto ou cantar o nome do grupo inteiro, mas todas as músicas precisam ter ao menos um momento pra cada menina para que ela possa ser encorajada pela plateia. É uma cultura.
Talvez eu pudesse saber disso se já fosse uma pessoa que acompanhasse o J-pop com grupos como AKB48 ou fosse bem weeaboo mesmo, mas a minha relação com o J-pop não se desenvolveu dessa forma, tanto é que jamais passou pela minha cabeça eu me importar com o fato de alguma das meninas arrumar namorado como acontece lá no Japão. Que bom, né? Mas eu adorei fazer parte disso, eu adoraria ter feito parte do DVD Fan Service, embora eu fosse ter um pouco de medo dos homens ali. Na ASOBIEXPO era muito fácil, cada um tinha seu espaço particular delimitado pela cadeira, eu não queria ficar do lado de uma certa galera com eles podendo esbarrar em mim.
Enfim, isso foi CUTIE STREET. Os sentimentos de CUTIE STREET. Aí acredito que toda essa vibe de J-pop foi interrompida mais uma vez por uma banda de rock japonês adolescente chamada Klang Ruler. Eu acho que foi o mais próximo que vi na vida de pop punk japonês, perdendo talvez para os BEAT CRUSADERS. A banda tinha suas músicas mais pesadas, mas num geral ela falava muito de amor e paixonites, usava muito dos refrões chicletes, bem do tipo que eles interrompiam o show e falavam "vou ensinar vocês a cantarem" e aí todo mundo aprendia e ficava todo mundo que nem bobo lá cantando o refrão que falava tipo lalalalalalalai byebye ou outras coisas do tipo por meia hora. Brincadeiras a parte, uma banda adorável, carismática e talentosa que eu adorei assistir. A minha esposa também adorou mais do que as outras porque achou mais animado e ela não tem tanto essa pira que eu tenho com o J-pop, ela prefere um rockzinho, e o Klang Ruler é um rockzinho muito fácil de apreciar.
Depois veio um grupo chamado SWEET STEADY e... assim, deixa eu falar uma coisa. Eles fizeram uma literal escadinha de grupo de J-pop do pior pro melhor, então o SWEET STEADY é mais legal que o CUTIE STREET, eu lembro ao menos de uma música do SWEET STEADY nesse show. As meninas são um pouco mais velhas também, mas aparentemente isso não se converteu em nenhum tipo de problema etarista, e sim num maior tempo de estrada que culminou numa fanbase bem maior e mais conhecedora do que elas estavam fazendo no palco. Sete meninas, acho. Aquela vibe ultramega colorida que a CUTIE STREET passou, mas as meninas eram mais profissionais, tinham mais presença, interagiam mais com a plateia, tinham mais músicas de gritar REI REI REI REI no ritmo, dançavam melhor, enfim. Era o CUTIE STREET só que mais maduro em todos os bons sentidos possíveis.
Sobre o próximo grupo, eram mais meninas de J-pop, mas sobre esse eu acho que tenho mais a falar. Se não conseguir eu posso só dizer que achei muito, muito melhor. Muito mais foda. Eu ouvi a discografia de todo mundo quando cheguei no Brasil, mas não sei se consigo nem reconhecer alguma música das CUTIE STREET, reconheço uma das SWEET STEADY, mas eu não parei mais de ouvir as meninas do CANDY TUNE. De vez em quando eu sinto necessidade de ouvir BAI!BAI!FIGHT porque é uma música absurda, eu aprendi a cantar na hora e cantei alto pra caramba com todo mundo, fiz muito esforço para pegar os nomes e torcer junto, e as outras músicas não eram tão absurdamente boas e desse nível de grudar na cabeça e não sair mais mas todas eram bem boas (talvez Kiss Me Patissier seja, tá... E Kyukyukyu Cute... E Oshi♡Suki♡Shindoi...), era um grupo muito mais diverso e heterogêneo que os outros dois, eu conseguia me apegar à personalidade de algumas meninas que inclusive tinham uma voz mais grossa e faziam bom uso delas, era impossível não prestar atenção na Miyano Shizuka porque depois daquele banho de Japão homogêneo me aparece uma menina que compartilha a genética entre japoneses, espanhóis, filipinos e russos. A própria Murakawa Bibian chocava um pouco porque ela tinha uma aparência toda kawaii mas ela tinha uma vibe bastante sarcástica. Num geral era isso: o CANDY TUNE era muito mais ousado e cheio de variações de personalidade, de entrosamento, e as mensagens pareciam ser mais profundas também, as próprias músicas eram mais extensas e cheias de frases. A dinâmica da torcida não mudou, é claro. Foi uma banda que eu levei mesmo pra vida. Não é que eu não tenha gostado da CUTIE STREET e da SWEET STEADY, para ser sincera quando penso nesses grupos me dá até tristeza de fazer comparações, até porque elas são produzidas pelas mesmas pessoas. Eu só tive a impressão de que CANDY TUNE era uma banda muito mais madura, que já não estava mais nessa fase de sondar personalidades e descobrir coisas básicas, parecia algo muito pronto e já no jogo.
Ainda muito apaixonada pelo CANDY TUNE, encarei o próximo grupo: FRUITS ZIPPER. Elas não pareciam tão diversas quanto as CANDY TUNE mas tive uma impressão de que veria algo muito bom também porque esse foi o grupo que mais empolgou a plateia até então. Elas eram super coloridas, como de praxe, mas pareciam mais experientes até pelas expressões, a estética era muito sóbria e bem definida, mesmo com tantas cores havia distinção bem clara para cada roupa e cada sentimento que as integrantes queriam transmitir. E então elas começaram e, sim, a plateia sabia tudo, cada frase, cada momento de interromper a cantoria para encorajar com o nome e o ritmo adequado, acho que esse grupo foi o grupo definitivo de J-pop daquele dia. As músicas também eram incríveis (eu até achei que poderiam ser do Nakata por alguns trechos específicos, e porque FRUITS ZIPPER me parece uma homenagem ao FRUITS CLiPPER do CAPSULE), as coreografias tinham algum grau de complexidade, tudo o que elas faziam era com muita expressividade e intenção. É outra banda que eu ouço com certa frequência desde aquele dia porque as músicas são muito boas, não vou citar nenhuma porque não sei escrever muito menos digitar kanji mas tem pelo menos cinco que são absurdas, em ao menos uma delas elas cantam com a qualidade de um coral no refrão. Devo dizer, porém, que a princípio eu ainda estava tão encantada pelo CANDY TUNE que não dei a devida atenção a elas, eu achei o grupo bom mas ficava aquela sensação de que tinha algo no CANDY TUNE que elas não tinham. Foi só depois do show que as músicas foram crescendo, crescendo e crescendo, minha memória gravou inúmeros trechinhos e eu ficava com saudade deles, não sabia de qual música era, precisava ficar caçando e assim eu acabei ouvindo a discografia inteira. Mais de uma vez. Foi muito feliz conhecer esse grupo, um grupo incrível, provavelmente inspiração para todos os outros do ASOBISYSTEM porque era muito evidente que elas eram as profissionais mais experientes dali.
Então acabaram todos esses grupos, sobraram só umas pessoas esquisitas completamente fora do clima das fotos coloridas e fofinhas dali, quatro meninas com poses bem estranhas, uniforme escolar e mexendo com itens aparentemente de laboratório. E, claro, Kyary Pamyu Pamyu. Bem, antes delas apareceu uma tal de KizunaAI e eu já torci o nariz porque, bem, IA, mas ela é inofensiva, parecia ser a Hatsuke Miku da ASOBISYSTEM. Depois uma amiga minha me contou que a KizunaAI na verdade é uma precursora dessa onda toda de VTubers virtuais, veio antes de todo mundo, já teve seus momentos de glória e até tem bons números, mas para ser sincera foi o momento decadente da tarde. Muitas pessoas saíram do salão e foram comer alguma coisa, muitas pessoas que ficaram sentaram (eu fui uma delas), não interagiram tanto quanto com os grupos humanos e o show foi bem extenso, acho que foi o show mais comprido do festival. As músicas eram legais, bem legais na verdade, mas a interação humana parecia fazer muita diferença mesmo. Não vou negar que era bem legal ver ela interagindo com as pessoas porque era um script interessante, bem parecido com tudo o que a gente viu até ali, bem autêntico, eu imagino que se uma pessoa só carregasse um show de J-pop nas costas seria bem assim. Ela também tinha sua pequena fanbase. Mas é, gente faz falta.
Um detalhe que faria muita falta eu não contar para quem tem planos de ir a algum evento desse tipo no Japão é que eles são bastante rigorosos com filmagem. Quando eu e minha esposa chegamos, nós meio que filmávamos direto com o celular, mas começamos a nos sentir estranhas porque ninguém mais estava filmando e, quando filmavam, filmavam em horas bem parecidas e porque voltimeia aparecia um alerta visual no telão com a imagem de um celular mas não conseguíamos entender muito bem o que estava falando. Chegou um momento que a gente simplesmente decidiu ceder ao desconforto e parar de filmar. Eu esperei o alerta aparecer novamente no telão e jogar o Google Tradutor com a câmera para entender e, pasmem, quando tem o alerta no telão é para te encorajar a filmar, divulgar o artista e tal, mas se o alerta não estiver na tela a filmagem é proibida. Eu tinha postado coisinha ou outra no meu finado perfil público do Instagram, acabei deletando por precaução, só deixei as gravações que fiz no meu perfil privado e depois as gravações nos momentos incentivados. Então tomem cuidado com isso. Não gravem nada. Aliás, evitem gravar pessoas no Japão sem autorização delas num geral, não só dentro de shows. Eles são bem rigorosos com isso e eles estão certíssimos, guardei pra vida.
Depois de mais de uma hora de show, ou foi o que pareceu, as pessoas foram chegando de novo e apareceu no telão a foto dessas quatro meninas esquisitas. Era óbvio que não seria um show de J-pop convencional, mas eu não fazia ideia do que esperar. Também não sou das pessoas que precisa esperar alguma coisa então não havia nenhum problema nisso, mas eu estava curiosa de saber qual seria o estilo, será que seria uma banda de rock? Teve o Klang Ruler, né? Aí começou: elas não deram satisfação pra ninguém, tambores começaram a bater, elas se posicionaram e começaram a cantar e dançar. Ah, eu estava quase esquecendo: o nome da banda é ATARASHII GAKKO!. Vocês devem ter percebido que sou horrível com ordem das músicas e tudo mais, mas tenho quase certeza que elas começaram com Go Wild. Foi um choque. A estética delas é um choque. A mensagem delas é um choque. A personalidade delas é um choque. A voz delas é um choque. A dança delas é um choque. Era... outro rolê, fomos transportadas para outro mundo naquele momento, elas estavam dizendo basicamente que acabou a brincadeira e que agora era hora de olhar pra realidade, foi uma pancada. Além disso, tudo nelas era autêntico, poderosíssimo, único. O estilo delas é só delas, não tem como imitar, se imitar vai ficar óbvio que é uma imitação. Elas misturam música tradicional japonesa com tudo, Go Wild é com trance e lá pro final elas usam um trechinho de Macarena só que sério; Tokyo Calling é uma música de protesto em que o protesto é usado como elemento musical, elas cantam um manifesto ritmado; Otonablue, a minha favorita em particular, é um pop-funk com uma coreografia bem engraçada mas que é perigosíssima de executar porque se alguém errar o movimento da cabeça daquele jeito bizarro do refrão a graça vai embora. Mas não dá pra descrever um show delas com a música porque, assim, a música é muito boa, eu já ouvi a discografia inteira, já ouvi as minhas favoritas inúmeras vezes, mas a energia delas ao vivo é por si só uma manifestação artística inexplicável. É uma tristeza que elas venham ao Brasil só para o Primavera Sound porque eu viajaria tranquilamente para vê-las novamente em condições normais, elas são incríveis.
Elas também são muito conscientes do choque que causam, ainda mais em um evento onde até então estávamos só vendo grupos de meninas fofinhas, e brincam com isso toda hora. A SUZUKA em algum momento interrompeu tudo e foi para a plateia para encontrar pessoas que tinham cara de velhos tarados para perguntar se ela era tão kawaii quanto as outras meninas (ou talvez nada disso tenha acontecido mas eu entendi dessa forma), é BEM engraçado pensar que a SUZUKA é mais nova do que boa parte das meninas que apresentaram antes também, ela tem uma voz grossa e ultra-potente, tem postura de líder da banda. Em geral Atarashii Gakko! é uma banda bastante positiva, como as outras, ela costuma encorajar as pessoas e passar a mensagem de que as coisas darão certo, que vale a pena viver e se esforçar, fazer amigos, descobrir o amor e fazer o que ama, mas elas costumam criticar as estruturas sociais do Japão junto com essa mensagem positiva porque não dá tempo de buscar essa felicidade tão valiosa quando o intenso capitalismo japonês aprisiona as pessoas dentro dos escritórios, e elas não questionam só a quantidade de horas mas toda essa estrutura interna do cidadão japonês de colocar a produtividade acima de tudo. E criticam muitas outras coisas também. Otonablue é uma crítica bem humorada ao machismo japonês que cobra tanto essa inocência feminina, um machismo próximo delas não só por serem mulheres, mas porque elas seguem participando do meio do J-pop mesmo que sejam tão únicas, são amigas das outras meninas, são agenciadas pela ASOBISYSTEM (afinal estavam na ASOBIEXPO), e algumas também já participaram de outros grupos de J-pop onde tiveram que performar a "menina inocente", aliás, a MIZYU (que é a verdadeira líder da banda, apesar da SUZUKA parecer tanto) foi dançarina da Kyary Pamyu Pamyu quando criança. Eu acho que ouvindo as músicas não dá para sentir com tanta clareza que elas estão criticando, ao vivo você não precisa nem entender do que elas estão falando para saber que tem crítica, tem acidez, tem sarcasmo, porque elas são muito expressivas, elas usam o telão para colocar cenas que complementam o que está acontecendo no palco, enfim, o show das Atarashii Gakko! é um verdadeiro manifesto.
Não só eu como minha esposa também ficou em choque com esse show, acho que ela é muito mais sensível a ver pessoas com atitude questionando tudo e se mostrando sem medo, então ela ficou com cara de quem estava questionando toda a vida durante o show. Acho mesmo que isso aconteceu, na verdade. Não sei se vale a pena continuar descrevendo, não tem muito bem como descrever um show, não me divertiria comentando música a música, simplesmente dêem um jeito de ouvir e pronto. Quem gosta de música japonesa precisa ouvir Atarashii Gakko!, não importa qual seja seu estilo, se você gosta de rock japonês, se gosta de J-pop, se gosta de visual kei, se gosta de heavy metal mesmo, se você tem um pingo de decência auditiva você deve ouvir e vai gostar. E o show... olha, sei lá, dá um jeito de ir no Primavera, mais do que isso só assistindo mesmo.
Depois veio aquele momento de tensão, aquele momento que todo mundo respirou fundo e tentou juntar as energias porque sabiam que a atração principal estava chegando. Com aquela plateia eu sinceramente estava com a impressão de que a Kyary nem importava tanto assim, PONPONPON já tem 15 anos, CANDY CANDY já tem 14, elas são as mais famosonas, talvez Kyary fosse coisa de gente mais velha como eu, mas eu acho que todo mundo ainda respeitava ela como se ela fosse a rainha daquele evento. E é mesmo, né? Todas as meninas de alguma forma se inspiraram nela, até nas Atarashii Gakko! tem ex-dançarina dela, é engraçado pensar que eu acompanhei a carreira dela em ascensão. Mas meu deus. Eu veria Kyary Pamyu Pamyu. Eu veria Kyary Pamyu Pamyu. Eu. Veria. Kyary. Pamyu. Pamyu. Meu deus. É claro que ela demorou mais para aparecer no palco, é claro que mantiveram todo o suspense, e aí ela apareceu.
Já mandou Fashion Monster.
Eu percebi uma coisa já em Fashion Monster: talvez eu ainda seja uma das maiores fãs de Kyary Pamyu Pamyu do mundo, mesmo que tenha passado uns bons anos sem ouvir porque estava numa jornada meio cult com bandas experimentais e de rock progressivo, porque nenhum fã ali foi tão expressivo quanto eu. Eu nem sei as letras mas por algum motivo eu lembrava palavra a palavra e cantava todas com memória muscular mesmo, eu não ficava balançando bastãozinho de luz, eu imitava cada movimento, quando ela girava pra cantar "fashion monsteerrrrrrrr" eu girava junto, eu pulava junto, eu com certeza era a pessoa com mais energia naquele salão todo. E eu fiz isso para absolutamente todas as músicas do show, menos as do Japamyu que eu não tinha tanta familiaridade, mas pra Tsukema Tsukeru, pra CANDY CANDY, e acho que teve Invader Invader também, e Kimi ni 100 Percent, e Ninjari Bang Bang, não teve pra ninguém. Eu também vi Kuru Kuru Harajuku sendo performada pela primeira vez, foi um negócio bem anti-clima porque é uma música muito diferente do que ela fez até então, mas não teve problema nenhum nisso porque é uma música muito foda e aliás eu nunca deveria ter parado de ouvir Kyary porque ela continua sendo muito criativa e inventando coisas absurdas. Eu acho que já chorei na Fashion Monster, mas devo ter chorado mais vezes, lacrimejado ao menos, e várias vezes me interrompi em tudo e me questionei se aquilo estava acontecendo mesmo, se eu estava num show da Kyary Pamyu Pamyu. Tudo bem que já não podia ficar gravando toda hora mas eu não tinha pique de gravar muito, eu gravei Kuru Kuru Harajuku só para ter um registro daquela noite, tudo o que eu sabia sentir era o show e a sensação de que não tinha como aquilo estar acontecendo, mas eu olho a gravação e vejo que aconteceu mesmo, que eu estava lá mesmo. Ainda fico em choque com isso.
Como tinha de ser, ela finalizou com PONPONPON. PONPONPON foi a primeira música dela que eu e muita gente, talvez a maioria das pessoas que estão com ela desde o primeiro sucesso, ouvimos e nos encantamos. PONPONPON, esse show num geral mas principalmente PONPONPON, me fizeram desenhar, pela primeira vez, uma linha do tempo da minha vida envolvendo todas as minhas questões com gênero da adolescência até aquele momento com muita clareza: eu reconheci que a Kyary Pamyu Pamyu foi pivô da minha transição de gênero, treze anos atrás (quatorze agora). Eu olhava para ela e olhava para minhas roupas e só podia pensar que ela era responsável por aquilo, mesmo que eu tenha uma paranóia de achar que ela pode ser uma pessoa bem conservadora que nem apoia nada disso, como ela é uma pessoa super reservada não sei se tem como saber as opiniões dela sobre pessoas LGBTQIAPN+. Agora que me bateu a curiosidade, fui pesquisar e descobri que não tem nada mesmo, mas que ela cedeu uma música como tema para um seriado japonês que tem um crossdresser como protagonista, eu tentei pesquisar mais mas foi só isso que achei, fiquei comprometida com assistir esse seriado. De qualquer forma, é um tema constante das músicas dela ser quem você é independente de como seja, da estética dela, então ao menos a arte comunica muito isso. Mas é, ela é super responsável por muita coisa que aconteceu comigo, por muita coisa que eu me permiti viver através dela.
Não sei se todo mundo sabe, mas por muitos anos eu fui muito conhecida por ser "a pessoa do sorvs", sempre que alguém queria sair comigo eu sugeria sorvete, era minha comida favorita e tinha um significado muito profundo pra mim: o primeiro foi um dia, em uma crise dissociativa que tive no meu aniversário de dezoito anos, quando eu saí de casa cinco da manhã sem muito rumo e acabei batendo perna do Santiago até o Calçadão, indo pela Duque de Caxias. Fiquei um tempão sentada de frente pra um chafariz ouvindo Raul Seixas no meu MP3 velho. Depois percebi que estava com muita fome e não tinha levado dinheiro, até porque eu não tinha dinheiro, eu não trabalhava, parte da minha ansiedade vinha do fato de que eu tinha feito dezoito anos e teria que começar a trabalhar. Então fui no trabalho do meu pai e ele me deu dinheiro para comprar um sorvete, me recomendou um sorvete, eu tomei um sorvete e fui muito feliz até chegar em casa a pé. Isso me marcou, desde então eu decidi que sorvete era muito importante. Eu levei o sorvete como a comida mais importante do mundo sozinha por um ano, até que a Kyary lançou em 2013 o álbum Nanda Collection e, com ele, a música Saigo no Ice Cream. Uma música absurda de boa e que conseguia expressar exatamente como eu me sentia sobre sorvete. Talvez sorvete ainda seja uma das minhas comidas favoritas, afinal não faz muitos anos desde a última vez em que chorei porque tomei um sorvete tão bom que me fez transcender, e eu não estou brincando sobre chorar, aliás, raras vezes eu brinco sobre falar que chorei. Mas se vocês querem saber como eu me sinto sobre sorvete, ouçam Saigo no Ice Cream. Eu fiquei muito abismada que a Kyary fez uma música que traduzisse tão bem o meu sentimento sobre... tomar sorvete. É algo muito específico, parece que é tão especial pra ela como é pra mim. Ela e eu nascemos quase no mesmo dia também, um ano e um dia de diferença, ela é de 29 de janeiro de 1993, eu de 28 de janeiro de 1994. É engraçado porque na época em que conheci a Kyary eu me assustava com o fato de que pessoas que pareciam muito mais novas que eu eram mais velhas, hoje artistas que parecem mais maduras do que eu são dez anos mais novas. A vida.
Eu quis escrever sobre o sorvete porque é só um resumo de como eu me identificava com a Kyary em tudo, nos pequenos detalhes. Muitas vezes eu ouvia as músicas dela e pensava que, se fosse para eu fazer músicas, eu queria fazer assim, pensando nos próprios instrumentos e no jeito de cantar mesmo. Eu ouvi o Pamyu Pamyu Revolution pela primeira vez meio que na brincadeira, ainda pensando muito que ela era só uma menina muito doida que tinha acabado de quebrar as barreiras de loucura do Japão, com aquele típico racismo amarelo de "waow o Japão é muito louco kkkkk não dá pra entender nada do que eles fazem kkkkk é outro mundo", não que eles não sejam mesmo bem diferentes da gente, mas colocá-los nesse lugar de deboche extravagante soa bastante ridículo para mim agora que pertenço a uma família de nipo-brasileiros. Muita piadinha com japonês soa ridículo para mim agora que pertenço a uma família de nipo-brasileiros, não sou a pessoa mais recomendável para vir falar de "exageros" sobre pessoas que denunciam racismo amarelo. E eu saí do álbum pensando: não sei como explicar muito bem para as pessoas mas isso foi um dos melhores álbuns que já ouvi, sem piadinha, na mais pura sinceridade. Eu ouvi o Pamyu Pamyu Revolution, o Nanda Collection e o Pikapika Fantajin no lançamento, aliás, numa época de dólar a menos de 3 reais eu importei os três do Japão. Eu me identificava muito, mas muito, com a Kyary. Via nela um reflexo meu. Tentava às vezes entender se eu tinha (ou até me forçar a ter) algum interesse romântico ou sexual nela porque, afinal, eu não imaginava que eu podia me identificar com ela com essa profundidade, eu tentei escrever a respeito disso só pra chegar na conclusão de que ela seria a pessoa que eu acharia mais legal no mundo todo mas seria impossível nós namorarmos porque eu não desejava essa pessoa, eu desejava ser essa pessoa. Era o mais próximo que eu podia chegar de assumir que a pessoa com quem eu mais me identificava nesse mundo todo, artistica, poetica e esteticamente, era uma mulher, cantora de J-pop, de estética lolita japonesa colorida, sem existir repertório, coragem ou até a possibilidade em si de uma auto-afirmação transgênero.
Então a Kyary me definiu muito como pessoa desde o momento em que a conheci. Eu passei a ter muito mais a esconder quando comecei a gostar dela porque eu queria ouvi-la o dia inteiro, imitá-la, pesquisar por suas roupas, pesquisar sobre Harajuku (um lugar frequente em suas músicas), tentar achar seus vídeos de shows no YouTube embora fossem quase impossíveis de encontrar, provavelmente por essa política japonesa que prevalece até hoje de não permitir ninguém gravar o que não é para gravar. Eu fiquei muito mais fechada no meu quarto vivendo um mundo de fantasia do J-pop dos anos 2010. E eu não tenho a falar só dela, porque antes dela veio o ALI PROJECT, depois dela vieram Perfume e CAPSULE (por causa dela, inclusive, já que eu acabei descobrindo o Yasutaka Nakata que produz as três e mais um monte de coisa e foi por isso que me apaixonei tanto pelo J-pop, e depois me aprofundei na cena de Shibuya e conheci tantas outras coisas), mas como esse show era dela, como eu vi ela cantando todas as músicas e cantei junto melhor do que qualquer japonês que estava ali naquele salão, acho que é suficiente falar dela. Posso falar de ALI PROJECT, de Perfume, de CAPSULE, com uma clareza muito maior do que falava dez anos atrás já que eu sempre escrevi em códigos para esconder quem eu era e não preciso mais, em outros textos, talvez só por querer, talvez porque quem sabe eu consegui voltar para o Japão e ir ao show de algum deles, mas agora acho que é suficiente falar da Kyary, não? Esse texto já está com 8 mil palavras.
Eu não acho que fiz nada além de ficar contando histórias, mas espero que tenha sido o suficiente para entender por que em algum momento eu olhei para ela no palco, olhei para minhas próprias roupas e fiquei emocionada ao ligar os pontos e perceber que aquilo tudo o que eu estava vivendo foi graças a ter conhecido ela. Eu queria explodir de contar cada detalhe mas não sei se dou conta, acho que teria que escrever mais sobre esse assunto e deixar aparecer.
Essa foi a ASOBIEXPO 2025. Saímos do salão, pediram pra gente colar a nossa Polaroid no mural e eu decidi não colar porque queria levar para casa, mas fui muito amaldiçoada por isso porque perdi a foto. Subimos as escadas, fomos andando por qualquer caminho, chegamos na estação pelo lado errado mas tudo bem porque tivemos uma vista linda da zona urbana de Chiba, entramos na estação, não tivemos pressa de embarcar na muvuca. Meio que foi um erro da nossa parte, eu estava muito aérea, tinha me esquecido de que o metrô tem horário e que estávamos bem longe de Tóquio, mais ainda de Otsuka. Bem, foi mais tarde mas embarcamos. Estávamos com fome, não tínhamos comido nada além daquela coisa de tarde, mas eu não fazia ideia de onde comeríamos. A estação de Tóquio era cheia de restaurantes e fast foods e tudo mais, mas eu tinha medo de parar para comer e perder o horário do último trem. Ainda restava um bom tempo até Tóquio então, enquanto minha esposa já dormia bem capotada, eu prestava atenção na mesma vista incrível que tivemos de dia, só que à noite. Para falar a verdade é melhor pensar que nada no Japão é indispensável, a minha recomendação pra uma viagem ao Japão é, antes de mais nada, seguir seu coração e conhecer o que você acha que precisa conhecer, viver o que você acha que precisa viver. As dicas pontuais sobre o que fazer quando está em um bairro que queria conhecer são maravilhosas, já as dicas sobre pontos turísticos ou coisas que você precisa fazer são péssimas porque eu não conheço muita gente que vai ao Japão pensando em pegar a linha Keiyo e ver o caminho entre Tóquio e Chiba mas, sinceramente, eu acho que todo mundo deveria ter direito de acesso a isso ao menos uma vez na vida. Eu trato a vista da linha Keiyo como indispensável. Você não vai ver ninguém falando "pegue a linha Keiyo, é inútil ir até o Japão e não pegar a linha Keiyo", mas eu falaria tranquilamente se fosse uma guia turística. Faça isso, gaste duas horas da sua vida com essa linha de metrô.
Mas pense também que eu sou o tipo de pessoa que considera um dos grandes eventos da própria vida pegar a linha Vermelha e a linha Esmeralda em São Paulo ouvindo alguns álbuns do Yes. Que em algum momento da linha Esmeralda chorou ouvindo Siberian Khatru passando na frente do, sei lá, qual é o rio que fica lá mesmo? Tietê? Então, eu vivi isso com muita felicidade e me respeito muito por isso. Por isso é inevitável que eu considere a linha Keiyo mais importante do que um Palácio Imperial. Por isso eu estou considerando muito sinceramente fazer uma viagem para o Japão só para andar de trem, cruzar o país de trem (e trem normal, não Shinkansen), elaborar muito bem a logística para saber em quais cidades vou dormir, se vou comprar hotéis com antecedência ou só meter o louco, em quais cidades iremos descer para almoçar, etc. Claro que acho muito difícil fazer isso numa segunda viagem, é muito mais prudente conhecer mais algumas cidades do Japão, pegar mais segurança no país como um todo e depois fazer uma loucura dessas, mas por que não? Talvez na terceira. Então essa é minha cabeça. Se você lê isso de mim e pensa "poxa, eu também sou meio assim, adoro passear e ficar apreciando a vista", é linha Keiyo na veia. Se não, o Palácio Imperial é melhor.
Depois de bastante tempo chegamos de volta na estação de Tóquio. Eu estava morrendo de vontade de fazer xixi, mas estava sem coragem de usar o banheiro feminino mais uma vez, então minha esposa me encorajou e eu fui. Isso ainda era bem difícil para mim. Saímos do banheiro e passamos a andar, um pouquinho rápido, em busca da saída daquele subterrâneo bem subterrâneo, e depois ficamos em dúvida sobre comer algo por ali mesmo já que a estação tinha até McDonald's, mas achei que seria bem mais prudente achar a linha Yamanote e voltar para Otsuka, então assim fizemos. Ainda um pouco difícil de acreditar que aquele dia tinha acontecido.
Graças ao fim da minha relutância em usar fotos para me ajudar a lembrar dos dias, e também em ter visto um determinado telefone nas minhas notas no dia 24/07, eu descobri que de fato foi a primeira vez que fomos comer num restaurante quase ao lado da estação de Otsuka e que esse não foi o dia em que fomos abordadas por budistas prosélitos. O restaurante era um lugar bem simples, com um pessoal não muito bem-humorado, pensei eu que pelo horário mas depois descobri que aquele lugar ficava aberto a noite toda. A comida, porém, era muito boa e vinha num volume abundante. Eu pedi uma porção de gyoza com queijo e mais alguma coisa lá, a minha esposa deve ter pedido alguma sopa com gohan, ela nem deu conta de tomar tudo e acho que isso não foi bem-visto pelos atendentes. Mas estava bom demais, bom bom bom demais. Um gyoza muito gostoso. E gyoza é minha comida japonesa favorita, então eu fui muito, mas muito feliz.
Subimos a ladeira de Otsuka como sempre mas, dessa vez, minha sandália simplesmente arrebentou. Essa minha sandália é bem porcaria, como eu já devo ter dito em algum outro momento, saiu cara pra caralho, ao menos era muito única mas nada nela era muito bem feito. E o pior é que arrebentou as tiras, que são a parte mais bonita e viva dela. Não precisei andar descalça porque ainda dava para usar com aquela tira arrebentada, era só tomar cuidado. Até hoje não arrumei esse treco, acho que levei para um sapateiro chatíssimo da cidade que sempre vê minhas sandálias e diz que elas são muito ruins, como se fosse segredo que os sapatos feitos estilo fast food são até piores em qualidade do que sapatos três vezes mais baratos do que eles, a questão é que a gente caiu em algum detalhe muito idiota que o pessoal colocou na sandália e tornou ela encantadora graças às influencers que vestem o sapato e dizem "Detalhes, né mores?", não preciso dessa sua análise, se puder consertar tá bom demais. Preciso de um sapateiro mais legal. Mas é, o negócio estragou. Ao menos foi a melhor sandália possível para ir ao show da Kyary, ela cumpriu muito bem o seu papel naquela viagem, agora poderia descansar.
Foi um dia bastante cansativo. Não me lembro de ter feito nada além de chegado no hotel, deixado as sandálias lá na entradinha e me jogado na cama. Era tudo o que eu precisava mesmo. Acho que tudo o que eu precisava dessa viagem era esse dia, eu fiquei até meio desnorteada depois dele, ele pareceu ter consumido todos os meus sentimentos. A viagem ficou muito diferente depois desse dia. Eu fiquei muito mais forte como pessoa, e acho que minha esposa também, eu não estou brincando quando digo que o show das Atarashii Gakko! mexeram com a química do cérebro dela de modo permanente, mas comigo teve toda essa carga que eu nem sei se dou conta de processar. É engraçado pensar que poderia nem ter dado certo, eu acho que esse dia tinha muito que acontecer. Mas que venham os próximos, não é?
Ainda não foi nem metade da viagem.