Série: Tóquio, Japão - Julho de 2025

28 de julho de 2025

31 de agosto de 2026

Último dia em Shibuya: aventuras residenciais e minha despedida em prantos no Miyashita Park

28 de julho de 2025. Estamos acabando a viagem, olha só! Falta pouquinho para eu ter mais o que fazer da vida, escrever sobre outras coisas, e poder falar que já posso programar a próxima viagem ao Japão para produzir outra série de textos. Ou não. Depois de um dia camuflada como homem, esse seria meu último dia normal, meu último dia me olhando no espelho e me sentindo perfeita, meu... último dia no Japão. É importante dizer que o último dia de fato foi o dia 29, mas eu não esperava que o dia 29 fosse ser um grande dia, eu acreditava que seria um dia em que arrumaríamos as malas, almoçaríamos em um lugar qualquer, iríamos até o aeroporto de Haneda e ficaríamos lá o dia todo esperando o avião para que a minha ansiedade não me devorasse. Ainda bem que não foi assim mas nesse momento, no dia 28, era a ideia. Então esse último dia teria que ser muito especial, teria que ser mais que especial, teria que ser o mais significativo da viagem: não fazia muito sentido querer conhecer um bairro novo, talvez um lugar novo dentro de um bairro muito especial, e foi assim que decidimos que encerraríamos essa viagem explorando mais de Shibuya, o bairro dos meus sonhos.

O meu look foi relativamente simples: eu voltei atrás no vestido que usei no primeiro dia de Ginza (terceiro dia da viagem), a meia-calça preta e a sandália que usei no Sunshine Park em Ikebukuro (segundo dia de viagem), acho que a lace loira, ficou um look bem legal, até um pouco Harajuku mesmo que a sandália fosse tressê. Isso foi bom porque começaríamos por Harajuku, era um dia de ver menos lojas e mais lugares, mas não acho que eu estava com a cabeça muito boa para organizar grandes explorações.

De qualquer forma, saímos. Mesmo trajeto de sempre. Descer para Otsuka, linha Yamanote sentido Ikebukuro, descer em Harajuku. Harajuku primeiro, porque decidi que eu compraria a blusa preto-e-branco da Yellow House, em nome do rock, em nome do visual kei, porque a fashion designer me fez me sentir o futuro do rock com aquela blusa. Eu chorei por um desconto mas ela se fez de desentendida, então gastei os 15 mil ienes na blusa e fui feliz. Passei na Yosuke e fiquei namorando muito aquela sandália vermelha em xadrez, com uma plataforma enorme, gigantesca, de uns 12cm, retinha e não de salto, mas não tive coragem de comprar, sobretudo porque... não adiantava, a sandália parecia não servir. Eu realmente não levaria um sapato sequer do Japão, isso me entristecia demais, demais demais, era quase insuportável. Então continuamos andando um pouco pela Takeshita Street mas naquela altura do campeonato não havia mais utilidade nenhuma fazer aquilo, nós já conhecíamos todas as lojas, eu no máximo estava louca para achar um cropped rosa bem otomezinha mas não consegui achar, ou melhor, nenhum dos que vi fazia o meu gosto. Cheguei perto de comprar outras coisas mas estava com medo do dinheiro não dar, e também não era nada que eu morreria se não levasse. Não lembro o que almoçamos. Continuamos a andar por Harajuku, já sentido Shibuya, mesmo que fosse cedo.

Entramos em um shopping de Harajuku que nunca tínhamos entrado antes. Ele era bem diferente daquele shopping do outro dia, que era cheio de lojas, de pessoas fazendo barulho. Era um shopping muito pacífico e bonito, com poucas lojas por andar, som ambiente (várias músicas de J-pop, mas KURU KURU HARAJUKU tocou mais de uma vez, era a música do momento), lojas de roupas com temáticas africanas, indianas, lojas de materiais escolares, livrarias. Um dos andares era uma exposição de uma mangaká, deu muita vontade de levar alguma coisa para apoiar e porque era lindo, mas estávamos mesmo no nosso limite econômico, lembro que estávamos numa situação de realmente não gastar nada além do necessário porque precisávamos comer e o dinheiro estava no fim. Ainda havia algo, mas estávamos com esse medo de gastar, pensando que poderia ocorrer uma emergência, como se eu não tivesse um cartão de crédito e não pudesse pedir um empréstimo. Enfim, todo mundo já entendeu as minhas limitações de mentalidade financeira da época, né? Já falamos sobre isso nos primeiros dias, não é necessário voltar ao assunto. No máximo é necessário pensar que, se nos primeiros dias eu estava com medo do dinheiro acabar antes do final da viagem, agora estávamos no final da viagem e o dinheiro parecia de fato estar acabando. Mas a exposição de artes da mangaká era linda, o traço dela era lindo, tudo parecia muito interessante, eu fiquei lá babando e acho que o pessoal que estava vendendo até ficou surpreso que não levei nada. Continuamos subindo até chegarmos na cobertura do shopping, que era um espaço super verde, escadarias, bastante lugar para sentar e apreciar a vista da cidade. Era muito, mas muito lindo. Tinha muita gente diferente lá. Tinha uma mulher usando um tamanco da United Nude que até hoje não consegui comprar, o Mobius, e eu vi essa mulher várias vezes ao longo desse dia, foi muito triste para mim apesar do tamanco dela ser de uma cor verde nada interessante enquanto eu quero o roxo (e ainda não desisti dele mesmo que, na oportunidade de torrar parte do meu décimo-terceiro em um sapato da United Nude, eu tenha escolhido a Stage Sandal e não me arrependa). Tóquio tem uma loja da United Nude, fiquei triste de não ter descoberto isso a tempo.

Eu não lembro, mas acho que tomamos um sorvetinho nesse shopping, ou um café, qualquer coisa do tipo. Quando descemos dele já era meio tardezinha. Umas quatro da tarde talvez? Algo assim. Continuamos andando até que chegamos em Shibuya de fato, e a ideia era explorar Shibuya, ver lugares de Shibuya que não conhecíamos até então. Eu já vou adiantando que acho que fiz isso de uma maneira bem burra: Shibuya tinha muita coisa interessante do outro lado da estação de metrô, tinha Udagawacho, tinha o Shibuya Sky (que não me recordo se estava funcionando, mas também estávamos com medo de gastar. Porra. Que burrice), mas nós optamos por... continuar na mesma avenida, passar por cima de muita coisa, entrar num centro comercial que de fato era interessantíssimo, e depois continuar andando meio em paralelo com um riozinho muito ralo e esquisito que o bairro tinha. Fomos parar na Shibuya residencial, para se ter ideia. Mesmo que nós tenhamos passado por Shibuya duas vezes eu sinto vontade de ir no mínimo mais duas numa próxima viagem, ao contrário de Ikebukuro e Ginza que foram rolês satisfatórios, em que parece que eu estava menos burra, fiz menos besteira, andei pelos lugares e conheci as coisas certas, mesmo que talvez seja só uma ilusão. Na minha próxima viagem eu preciso revisitar a Takeshita Street e ver novidades, conhecer a Cat Street, mas Tóquio será para Shibuya e Shinjuku (e os bairros que não conheci, claro), sinto que só preciso voltar a Ginza para tomar café e só preciso voltar a Ikebukuro porque, afinal de contas, na minha cabeça eu moro lá.

Apesar disso, dessa minha burrice, não posso dizer que não tive momentos interessantes lá. Vamos voltar ao começo, OK? Vamos voltar ao começo. Nós achamos outro prédio comercial que me interessou muito entrar porque era um prédio da Yamaha, e lá vimos várias coisas cotidianas, num andar um salão de beleza, em outro uma academia, em alguns outros nem lembro o que tinha. Em algum momento nós interrompemos nosso rolê para entrar em uma cafeteria desse prédio, tomar um cafézinho gostoso, comer um negocinho tranquilo para forrar o estômago, descansar bastante porque já estávamos adquirindo cansaço crônico de bater perna (eram no mínimo 10km por dia, segundo o meu celular), carregar o celular, enfim. Foi uma parada completa. Depois terminamos de explorar e encontramos até um cinema, tivemos um sentimento muito legal ao ver que o filme Ainda Estou Aqui estava em cartaz, era muito legal ver a Fernanda Torres com todas aquelas letras do alfabeto japonês ali. Faltou ousadia para entrar no cinema e assistir um filme aleatório, mas bem que pensamos nisso.

Depois disso sim descemos e pegamos a avenida que tinha sim coisas interessantes, era sim muito legal passar por cima daqueles cruzamentos com uma passarela enorme que mais parecia uma cobertura de prédio, como se os cruzamentos enormes de Shibuya fossem por si só alguns prédios. Daí daquela passarela enorme fomos parar nesse centro comercial super estranho que era conectado com a passarela, que era conectada com a rua, e tudo era conectado demais e muito esquisito. O prédio não tinha entrada, ele só acontecia no meio da passarela. Acho que era nesse prédio que ficava a Google de Shibuya, inclusive. Lá também haviam várias cafeterias, até um restaurantinho, onde cogitamos jantar mas acabamos não o fazendo. Depois disso sim, ainda em um rolê cheio de passarelas, tivemos a vista do Rio Shibuya. Eu fiquei por minutos observando de longe um prédio onde vários meninos estavam treinando com CDJs (me desculpem meninos), sem conseguir ouvir nada mas apreciando muito. Era muito engraçado porque não parecia uma puta escola de DJs, parecia que era a casa de alguém e toda aquela pirralhada tinha se encontrado para brincar com as CDJs, embora o jeito deles não fosse de quem estava apenas brincando. Era fascinante demais para mim que, mesmo num rolê como esse, ainda conseguíamos ver o quanto a construção de música era presença forte em Shibuya. Fomos andando, andando, andando, e andando, e andando, e andando... e andando... e andando... e andando... e parando no centro residencial de Shibuya, que era surpreendente porque era um bairro absolutamente normal, os prédios eram super normais, as pessoas estavam abrindo os portões dos prédios e entrando com os carros, provavelmente chegando do expediente, como se eu estivesse em Londrina, em prédios que eram bem mais antigos que os da Gleba Palhano, mas pareciam novos demais para serem comparados aos do centro da cidade, porque de fato devem ter sido construídos com a tecnologia usada na Gleba Palhano só que há 30 anos atrás.

Daí decidimos - minha esposa decidiu na verdade, do alto da sua sabedoria, tentando me tirar dessa loucura de andar sem rumo mais uma vez e ficar observando e admirando o mundo das pessoas ao invés de... fazer algo que pessoas normais fazem - que tínhamos andado demais e precisávamos procurar um lugar para jantar. O problema era que eu estava extremamente seletiva sobre o que comer. Nós passamos por inúmeros restaurantes, alguns bonitos, outros bem feios, com inúmeras variedades de um bilhão de coisas, e eu não queria nada. Devo dizer que eu já estava com muita fome, enquanto minha esposa ainda estava apenas preocupada em ter um lugar para ir quando a fome dela chegasse. Fomos voltando, voltando, voltando, e voltando, e voltando, e voltando, e voltando... e voltando... e voltando... e voltando... até que chegamos ao prédio onde fica o Shibuya Sky, mas não estávamos com coragem de ir ao Shibuya Sky, estava com gente demais, o lugar estava entupido de gente, era Shibuya em pleno retorno de expediente das pessoas comuns. Não tinha condições. Estávamos começando a entender que, talvez, deveríamos comer em Otsuka, não em Shibuya, porque nada me agradava, aparentemente só algo muito caseirinho poderia me ajudar. Voltamos ainda mais um pouco e chegamos ao Miyashita Park, e foi aí que eu entendi que toda essa confusão, tudo isso que aconteceu nesse dia, não era assim só pelo fato de eu ser uma desmioladinha.

O Miyashita Park estava ainda mais cheio e vivo do que no outro dia. Muitos jovens, mas muitos jovens mesmo. Talvez estivessem voltando da escola ou da faculdade, com seus bandos, fazendo um trilhão de coisas divertidas. As influencers com seus celulares gravando lives sobre sei lá quais assuntos, vestidas com looks de quem tinha acabado de sair da loja mais barulhenta de Harajuku. Muita gente. Muita gente mesmo. Acho que compramos uma soda, aquela da maquininha que agora sabíamos que não era água. Eu sabia que estava com fome, sabia que minha esposa poderia ficar com fome a qualquer momento, se cansar a qualquer momento, mas pedi licença a ela porque eu precisava fazer uma coisa, talvez a coisa mais importante da viagem toda: eu levei o meu enorme fone de ouvido Bluetooth nesse dia, me coloquei de frente para a Tower Records mais uma vez, ouvi Satellite Hour, Tokyo wa Yoru no Shichiji e várias músicas do Bossanova 2001, do Pizzicato Five. Havia muita gente ali mas, quando eu coloquei o meu fone de ouvido, quando passei a olhar para a Tower Records e todos aqueles cruzamentos de Shibuya, parecia que só estava eu e a Maki Nomiya ali, parecia que todo mundo havia sumido. E aí eu comecei a chorar, chorar muito, chorar alto, chorar de soluçar.

Eu não queria que aquela viagem acabasse, não queria ir embora do Japão, estava realmente tentando entender como poderia me mudar para lá e construir minha vida lá. Na verdade era uma mistura imensa de sentimentos. Era uma mistura de tanta coisa, mas tanta coisa! Mas eu posso tentar falar de tudo, juro que posso, eu tenho essa capacidade. Em primeiro lugar, eu tive a sensação de que estava vendo as músicas do Pizzicato Five acontecendo na minha frente. Parece que as músicas foram feitas naquelas ruas. Tudo fazia sentido" os carros parando, os carros se mexendo, as pessoas e seu jeito de andar, seu jeito de interagir, tudo parecia fazer todo o sentido com aquilo que eu estava ouvindo e isso, por si só, é capaz de me fazer chorar. É esse o tipo de relação que eu tenho com a música. É como se fosse uma maneira de eu me conectar com um único instrumento que contém tudo o que todos estão sentindo ao mesmo tempo, participar de uma pequena parte disso, por um curto espaço de tempo. É coisa de gente chapada mesmo. Ainda que o Bossanova 2001 já tenha, sei lá, 40 anos, que Shibuya provavelmente fosse outra, parecia muito que era aquela.

Tudo isso se misturava com o fato de que a viagem estava terminando. Hoje entendo como isso era desesperador porque foi essa viagem que me deu a perspectiva de lutar tanto para existir. Eu passei todos aqueles dias vestindo a roupa que queria, colocando a maquiagem que queria, a lace que queria (afinal meu cabelo era curto demais, hoje só uso lace em contextos realmente artísticos), andando do jeito que queria, falando do jeito que queria, mas não era assim que eu vivia no Brasil. No Brasil eu só me vestia do jeito que queria para ficar em casa e para ir a baladas e bares amigáveis a LGBTQIAPN+ com amigas, de resto eu ainda tinha que colocar essa carcaça masculina e viver. Foi depois dessa viagem que eu fui pela primeira vez à Caixa Econômica Federal do meu bairro resolver algum problema com meu blazer da Uniqlo, minha calça marrom florida, vendo a atendente não me tratar mal por isso e tomando a coragem de me portar de maneira mais feminina. Foi depois dessa viagem que comprei um tênis rosa para ir até a nutricionista a pé com uma roupa feminina, que disse a ela que meu nome "agora" era Lis, que desafiei as ruas da Gleba Palhano e encarei os olhares de pessoas que nunca prestaram atenção em mim antes. Foi depois dessa viagem que eu criei coragem para ir ao shopping experimentar roupas pela primeira vez, como fiz na Uniqlo e, quando fui ver um apartamento para comprar nesse mesmo dia com meu nome morto, decidi mandar um WhatsApp para a vendedora dizendo "não se surpreenda por favor, dessa vez eu vou com roupas femininas. Meu nome não é aquele lá, meu nome é Lis". Até então eu não fazia essas coisas. Até então o morto ia comprar apartamento, o morto ia ao banco, o morto trabalhava, o morto ia ao médico, a Lis só saía em eventos notoriamente seguros e seu nome não existia em lugar algum, se não o coração dos melhores amigos. Por isso era tão desesperador voltar ao Brasil. Era desesperador voltar à vida encaixotada que eu tinha antes. Tão desesperador que, de fato, eu não consegui voltar. Meus pais se sentiram muito enganados quando eu contei que era uma travesti mas que "tudo bem, eu só me vestia assim de vez em quando" e, meio ano depois, cheguei com um laudo de autismo com altas habilidades com um nome que eles não conheciam e até hoje não querem conhecer: "Lis Núbia Santos Gaspar Ribeiro". Mas na minha cabeça tudo o que eu tinha era essa possibilidade de "só me vestir assim de vez em quando", eu não imaginava que um ano depois estaria com meu nome retificado e realizando o sonho de existir plenamente. Não devo perdão a ninguém, eles já não me aceitaram antes, é uma desculpa muito esfarrapada reclamar disso depois de me maltratar tanto já com aquela quantidade reduzida de informação. Eu não consegui voltar ao que era antes. Não teve como voltar. Não depois do que vivi em Tóquio. Mas o meu choro desesperado foi um choro de quem acreditou que voltaria, de quem acreditou que a existência era apenas um sonho que teria que acabar. Era um choro alto, sofrido, com urros. Um dos piores choros que já tive na minha vida.

Por sorte, o Pizzicato Five é lindo e me tranquiliza muito.

Meu choro também era o choro de quem teria que ver seus pais novamente, depois deles saberem (um pouco de) quem eu era e terem me destruído por isso. E eles não estavam satisfeitos, eles queriam me destruir mais, queriam uma "audiência" exclusiva comigo para acabar com a minha pessoa e me obrigar a pedir mais desculpas para minha esposa por eu ser quem eu sou. Essa reunião ocorreu mesmo e foi um dos piores dias da minha vida, me tornou mil vezes mais forte do que eu era. Eu não imaginei que seria tão forte, eu não comemoro ser tão forte, eu não queria ser tão forte, eu não merecia viver num mundo onde eu preciso ser tão forte para sustentar algo que não é nenhum crime, não é nenhuma maldade e não é nenhuma falha. Eu chorava pensando que teria que adquirir essa força, chorava sabendo que teria, porque entendi muito bem que tinha perdido minha família e agora era só eu, e eu ainda tinha medo da minha esposa não sustentar o abandono familiar completo e chorava por isso também. Eu chorava pensando que teria de aprender a me defender, porque tinha medo de sofrer violência doméstica dos meus pais e sempre fui uma pessoa muito pouco atlética, apesar dos meus dois meses de kung fu. Dito isso, nunca sofri esse tipo de violência física, mas sempre tenho um resquício da sensação de que ela vai vir, já que a violência verbal contra pessoas trans é tão inerente às pessoas cisheteronormativas que patologizam ou (des)moralizam ou mesmo só relativizam a nossa existência que elas nem percebem que cometem e talvez em algum momento elas se sintam no direito de nos bater porque se sentem "desrespeitadas pelo fato de não poderem me chamar e tratar do jeito que elas querem". Você já reparou que essas pessoas acreditam que nós somos assim não porque somos assim, mas porque desejamos provocá-las? Desejamos atacá-las? E é assim que elas justificam nos atacar? Inclusive fisicamente? Porque eu, ao longo desses anos, fui descobrindo tudo isso. Hoje tenho um escudo cheio de espinhos contra essas pessoas. Um escudo que não vou largar porque é preciso, porque a única outra opção é abandonar o escudo mas também essas pessoas. Assumo, muitas vezes penso que é a melhor opção. Aposto que você que me lê também acha isso. Eu na verdade acho isso. Não sei por que insisto. É uma esperança patética.

Todas essas lágrimas que caíram no chão de Shibuya eram lágrimas muito conscientes de que eu encararia um inferno quando voltasse ao Brasil, então eu não queria voltar. Antes de conhecê-lo, o Japão parecia um mundo muito utópico. Hoje ele é mais utópico ainda porque é o meu abrigo contra todas as coisas ruins que aconteceram na minha vida por eu ser transgênero, e tantas outras coisas que já repeti tanto e nem vale mais a pena repetir de novo. Eu sinto tanta falta de Tóquio que me dá vontade de chorar. Se antes eu já chorava com Bossanova 2001 por ser um álbum incrível, agora choro porque ele me devolve essa Tóquio que é meu abrigo. Quando me lembro da Tower Records, eu choro. Eu sinto falta da velhinha e do atendente me elogiando por ser muito bonita em Ginza, das gyarus em Ikebukuro, sinto falta desse mundo em que ninguém se importa comigo por eu ser trans. Ainda que hoje as pessoas me elogiem muito porque minha beleza é tão irresistível que até transfóbicas precisam se render a ela, não é apenas sobre o elogio, toda essa atmosfera pura e descontaminada da presença de pessoas que me machucam conta. É muito utópico. Como seria minha segunda visita ao Japão? Agora que não preciso mais dele como abrigo? Que já estou acostumada a ser eu mesma o dia todo em todo lugar? Que eu já encarei o inferno no Brasil e sobrevivi? Acho que esse tratamento do Japão como meu abrigo afetou muito mais a minha viagem do que eu imaginava. Talvez eu de fato não estivesse buscando turismo, eu estivesse buscando a mim mesma, buscando as referências que me construíram enquanto apreciadora de cultura japonesa, mas principalmente - e isso passou muito despercebido até eu refletir a respeito - buscando observar, entender, viver como parte desse mundo que parecia me abraçar enquanto eu não tinha nem coragem de me expor ao Brasil porque o Brasil tinha o rosto estampado da minha família e do meu meio social mega precário que praticamente se resumia às igrejas das quais me despedi. Eu acho que, implicitamente, busquei muito fazer parte do Japão. Eu absorvi Higashiikebukuro por inteiro como o bairro onde morava, eu queria ver bairros residenciais comuns, queria ver o que as pessoas estavam fazendo nas sacadas, nas janelas, nas suas casas, nos metrôs, nas lojas, depois do expediente, como celebravam o final de semana, como recebiam o início da semana. Não quer dizer que consegui e, se os japoneses lerem isso, irão me odiar, porque a vida da pessoa japonesa é extremamente privada, ainda mais em Tóquio. Me perdoem, japoneses. Não faço mais. Prometo.

É claro que além de tudo isso ainda passava um filme na cabeça sobre todas as coisas legais que vivemos lá. O maravilhamento com Ginza e seu clima super metropolitano chique, o Sunshine City de Ikebukuro, o cafézinho gostoso de Ginza, a ASOBIEXPO, Akihabara, Ueno, Tóquio e Tamamura. Sem falar de Harajuku e Shibuya, ali onde estávamos. Como foi bom ter conhecido isso tudo, ter vivido isso tudo, nesses dias! Só isso já bastava. A vista de Shibuya daquele lugar, que parecia ser Udagawacho, também era linda e encantadora. Eu preciso ir até lá na próxima.

Então, em algum momento, eu parei de chorar. Tive medo do tempo, já era noite, eu sabia que restaurantes fechavam cedo. Me recompus, tentei dar um jeito na minha maquiagem, saímos do Miyashita Park e voltamos para Otsuka. Em Otsuka, finalmente encontrei o lugar onde poderia me realizar: uma sushi house com esteira, que tinha tudo quanto é tipo de sushi (de verdade), você poderia pedir o que quisesse, eles te dariam e colocariam na sua conta. Funciona assim: cada sushi tem um valor X e esse valor é sinalizado pelo tipo de pratinho que eles te entregam, então você vai acumulando pratinhos de diversas cores e estilos e, no final, o cálculo do preço é feito com a soma desses pratinhos. Os sushis eram incríveis. Incríveis, incríveis. Comer aquilo naquela altura do campeonato era um presente. Nós tentamos não exagerar porque tínhamos medo de gastar mas, na real, comemos muito bem, comemos sem medo, experimentamos de tudo, eu me entupi de comer, foi maravilhoso. Um baita encerramento, um baita último jantar para essa viagem.

Também bebi, é claro, porque sou filha de Deus. Não enchi a cara ao ponto de dar PT mas um saquêzinho é tudo de bom, eu sinto muita falta. E voltei para o hotel, bêbada, com as minhas lágrimas secas, comentando com a minha esposa que já tinha consultado o valor do aluguel em Tóquio e que meu salário dava conta, que já tinha consultado com meu chefe se o home office valeria para eu trabalhar do Japão, e que era perfeitamente possível para nós nos mudarmos e recomeçarmos nossa vida ali. Apontei para um prédio em Otsuka, um prédio velho mas muito bem preservado, com uma porta enorme, janela grande, mas tamanho tão pequeno quanto nosso apartamento em Londrina, e disse que era um bom candidato. Então chegamos ao hotel. Aí eu deitei na cama e dormi.

Você leu um capítulo da série Tóquio, Japão - Julho de 2025

escrito por nubobot42 narrado por lisbeth